Opinião
Rep�blica sem c�o de guarda
Frase de Platão: ?A razão é o cão de guarda da paixão?. Mas, no tempo da república grega, a razão não controlava o galope desenfreado da paixão. Sem rédeas, prefeitos e vereadores amarravam seus ?cães de guarda? num poste, a fim de devorar uma parte dos impostos do povo. Mas os desígnios da paixão não paravam por aí. Instigados pela inveja, membros dos tribunais fiscalizadores assassinavam seus ?cães de guarda? para abocanhar outra parte. Como? Usavam a chantagem como instrumento sugador de impostos. Era tudo muito engraçado! Os falsos conselheiros do povo mandavam auditar as contas das prefeituras e, antes de registrar o processo no Ministério Público, chamavam os prefeitos e ameaçavam mostrar as irregularidades à população. Os desdobramentos éticos e psicológicos dessa estratégia pareciam com cenas de um teatro. Diz a lenda, que ao ver descortinadas as suas falcatruas, um dos prefeitos colocou as mãos sobre a cabeça e recorreu aos conselhos da sua alma errante: ? O que fazer, meu Deus, para controlar a sede desonesta e insaciável desses homens? Comprá-los! É, não há outra saída para este tipo de gente! E, depois de esvaziar o cofre da prefeitura para socorrer a extorsão, leu na imprensa oficial que suas contas haviam sido aprovadas por unanimidade. Chegou em casa eufórico: ? Minha mulher, meus filhos, foi tudo intriga da oposição! E mostrando a decisão da justiça: ? Olhem aqui, sou ou não um homem honesto? A alegria era geral. Até os vereadores, que deveriam ser afastados por não cumprirem a missão constitucional de fiscalizar as contas do prefeito, recomeçavam o ?exaustivo? trabalho de arquitetar novos e alucinados sonhos. Tudo isso em meio a fogos de artifício, música, vinho, comida farta e muita mulher bonita. Melhor: sob o aplauso do povo endividado e o olhar vesgo da Justiça. Resultado do desgoverno? Os gastos aumentavam, a dívida pública assustava o investidor, o país não se desenvolvia. Havia desconfiança. Para tentar dissipá-la, faziam-se mil piruetas com a economia. Mas, no fundo, deleitavam-se com a imoralidade. Tanto que brigavam ferozmente para colocar amigos nos tribunais que deveriam fazer justiça. Ah, Platão, falar é fácil, difícil é colocar na cabeça dos homens a idéia de que eles devem construir intuições fortes e independentes para fiscalizar a si próprios e proteger a república contra as previsíveis investidas da paixão humana. (*) É contador.