Opinião
O barbeiro de Picasso
Na semana passada, uma exposição na capital da Espanha devolveu ao mundo das artes uma informação quase esquecida, a da existência de um museu no município madrilenho de Buitrago, onde estão reunidas obras de arte doadas por Pablo Picasso a seu barbeiro, Eugenio Arias. O que isso tem de significativo? Afinal, exposições sobre o trabalho de Picasso não são novidade e os maiores museus do mundo disputam avidamente a primazia de possuir ou expor mais obras do genial espanhol. O significativo nesta mostra (Coleção Eugenio Arias) está no fato de que o barbeiro em tela, único profissional a cortar os poucos cabelos do careca Pablo Picasso, recebeu do amigo e camarada (ambos afirmavam-se comunistas), como presente, cerca de uma centena de obras. E o que fez? Poderia tê-las vendido e apurado um bom dinheiro. Poderia, igualmente, ter legado esse patrimônio como herança a seus familiares... Mas não. Eugenio Arias, pacientemente, ao longo de 26 anos de corte dos esparsos cabelos do gênio calvo, colecionou tudo o que recebeu. E doou esse valioso acervo à sua cidade natal, Buitrago. Um excepcional exemplo de cidadania. Enquanto isso, desconhecendo exemplos como esse, Alagoas segue malbaratando seu variado e rico patrimônio cultural. Coleções pacientemente amealhadas ao longo de décadas, são espalhadas em função do pouco interesse dos poderes públicos (e da iniciativa privada) em preservar essas coleções. Primorosas bibliotecas, conquistadas e organizadas ao longo da vida de intelectuais como Arnoldo Jambo, Werther Brandão e outros, dispersam-se por falta de interesse público em preservá-las íntegras; coleções de obras de arte (como a de Zé Paulino, Lourenço Peixoto, Myrian Lima...) igualmente não estão ao alcance do público. O exemplo do barbeiro de Picasso nos cairia muito bem...