Opinião
Refazendo sonhos
Um dos pontos altos do espetáculo global constituído pela cerimônia de posse do 44º presidente dos Estados Unidos da América, o discurso de Barack Obama correspondeu às expectativas de um orador amadurecido, e com elogiável talento para o marketing político, hábil construtor de frases de efeito. Refazer a América é, sem dúvida, uma senhora frase de efeito, capaz de gerar ondas de repercussão em todo o mundo. Ouvida de forma separada do resto do discurso ? como é usual acontecer com as ?tiradas? de qualidade desse tipo de peça de oratória, a propositura é muito ambiciosa, quiçá inalcançável, pois como reconstruir sem destruir antes? E, apesar de toda crise, de tudo que possa se considerar de errado na construção dos Estados Unidos da América, a superpotência é produto de uma construção sólida, quer seja do ponto de vista econômico, quer seja como economia, quer seja como cultura e/ou ideologia. Mas, exatamente por ser desproporcional às possibilidades, a formulação assume dimensões dos famosos chamamentos para a realização do impossível sonho, pois, como já disse o poeta, ?sonho sonhado junto é realidade? (ou algo mais ou menos assim). O fato é que, na grande política de massas, sonhar junto é a força motriz para as grandes obras, para transformações de grande porte. Não tão grande quanto reconstruir a América, mas a bandeira seduz, atrai, entusiasma. O jovem Barack Obama começa bem, aprofundando seus laços de ligação com as multidões, ao mesmo tempo em que amarra uma ampla costura política capaz de fazer sentar à mesma mesa governamental democratas e republicanos. Ousado, consciente das esperanças despertadas por sua eleição, o novo presidente dos Estados Unidos falou para o mundo. Oxalá sua proposta de reconstrução possa se converter em algo mais do que outro boom do mercado imobiliário americano.