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Um anjo viveu entre n�s...

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Há vidas que se medem quantitativamente. Outras, simplesmente passam... Há criaturas, entretanto, que se vão cedo, deixando trilhas iluminadas aos que ficam: são os anjos. O anjo que clareou nosso viver foi a doce Heloísa Marinho de Gusmão Medeiros. Éramos quatro irmãos, sendo ela a primogênita e nossa ?abelha rainha?. Todos a cercavam pela acolhida carinhosa e sábia. Filha, mãe, esposa e irmã exemplar, a saudosa Loísa, como carinhosamente eu a chamava, prematuramente nos deixou. Tínhamos uma afinidade incondicional. Quando festejava mais um aniversário, no dia 28 de outubro, eu nascia. Fomos irmãs unidíssimas. De mãos dadas comigo deu seus últimos suspiros. Hoje, 21 de janeiro faz exatamente 20 anos de sua partida. Aluna aplicadíssima foi referência em sua época. Colecionou medalhas de ?honra ao mérito?, apesar de constranger-se ao recebê-las. Era simples e não gostava daquelas honrarias. Passava horas ao piano que tão bem dedilhava. Tinha nos filhos amigos inseparáveis, numa convivência cheia de gestos imensuráveis de diálogo e amor. Dedicada professora da Ufal lecionava língua e literatura francesa. Como escrevia fácil! Mas não é da Heloísa escritora, membro do Grupo Literário ou Imortal da Academia Alagoana de Letras que lembramos diariamente. É do ser humano solidário e amigo. Havia sempre um lugar disponível em seu ombro para os que careciam de ajuda. Certo dia, bateu-lhe à porta um jovem despojado que lhe tomou alguns minutos. Solicitou-lhe uma quantia, que segundo seu projeto sustentaria a família. Pretendia comprar um moderno carro de fazer pipocas, que servisse de matriz para pequenas outras. Heloísa deixou-o entrar, escutou-o, trocou ideias e deu-lhe o solicitado. Foi criticada por alguns familiares, atribuindo-lhe um perigo iminente frente a um desconhecido. A querida irmã não desanimou. Estava convicta de seu gesto. Alguns meses depois, em época natalina, chegou-lhe à porta um rapaz bem vestido com um belo presente e palavras de gratidão. Espiritualizada, Heloísa era devota de São Judas Tadeu, patrono do dia em que nascemos. Se anjos têm papel especial nos céus, Heloísa deve fazer parte de uma orquestra, feliz, tocando seu piano. Em sua breve passagem na terra, cumpriu as preces de São Francisco de Assis, favorita de nosso querido pai. ?Onde houve tristeza, levou alegria; onde houve trevas, levou a luz; onde houve dúvidas, levou a fé?. Até algum dia, meu anjo querido! (*) É médica e empresária de turismo.

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