Opinião
Uma met�fora para o mundo contempor�neo
Andando no Centro de Maceió, não pude deixar de bater os olhos na manchete de um jornal numa banca de revistas: ?Hamas diz que lançará foguetes enquanto Israel mantiver ofensiva?. Percebendo meu interesse, o dono da banca comentou: ? São uns fanáticos, metidos nessa guerra sem sentido. Um bando de terroristas que só querem explodir tudo. Eu não me meto nisso. Estão todos errados. O que aquele homem estava dizendo não era mais que a repetição da propaganda da turma do Tio Sam. Como eu não simpatizo politicamente com o Hamas, poderia ter ficado calado. Mas não me contive. Na mesma hora me veio uma metáfora para explicar o caso. ? O senhor tem casa? ? perguntei. ? Sim. Por quê? ? Imagine a situação. É madrugada. O senhor e sua família dormem tranquilos. De repente, um estrondo. Parece que vão derrubar a casa. Rapidamente um exército armado até os dentes invade o quarto, apontando fuzis para a cabeça do senhor e de sua família. Os homens mandam vocês saírem da casa. Do contrário, morrem. A partir daí a casa não lhes pertence mais. É parte agora de um Novo Estado que eles estão fundando. O que o senhor faz? ? Saio, ué?! Não quero morrer. ? Pois é. No primeiro momento vocês decidem sair. Mas depois você percebe que aquele exército não queria apenas a sua casa. Queria também a dos seus vizinhos. E a dos vizinhos dos seus vizinhos. O senhor percebe que tudo aquilo é na verdade parte de um plano de dominação. Que o que eles querem mesmo é controlar toda a região, pois descobriram que naquelas terras ? suas e de seus vizinhos ? existe muito petróleo e que vale uma fortuna. Então, o exército fortemente armado começa a empurrar o senhor, seus parentes e seus vizinhos cada vez mais para fora daquela terra. Em pouco tempo, todos vocês estão vivendo como escravos em verdadeiros campos de concentração, sofrendo bloqueios e passando necessidades. Aí o que é que o senhor faz? ? Eu me revolto, né?! Os caras roubaram minha casa ,expulsaram-me da minha terra e ainda maltratam minha família! ? Vê? A situação é cruel. Então, o que o senhor fará todas as vezes que passar na frente de sua casa tomada pelos invasores? ? Ah, moço! Eu atiro uma pedra, um tijolo, um pedaço de pau! O que eu tiver na mão! ? Tudo isso porque o senhor quer de volta o que é seu. Mas digamos que o senhor não tenha apenas pedras e paus. Também tem bombas e foguetes. Usaria? ? Claro! Agora é uma guerra! ? Pois é. É justamente essa guerra que vive o povo palestino. Saí da banca de revistas imaginando o que aquele homem estaria pensando agora. No caminho pra casa, me lembrei da frase que certa vez ouvi de um historiador chamado Valério Arcary: ?Numa luta entre desiguais, permanecer calado é sempre apoiar o mais forte?. (*) É professor e jornalista.