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Carnaval no c�u

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Lamentei por não ter podido acompanhar melhor a cerimônia de posse do Obama. Pelo pouco que vi, foi uma cerimônia emocionante: multidão em êxtase, astros do cinema, da televisão e da música. Como ele é de Chicago, aguardava-se algum representante da principal expressão cultural americana, mas não teve ninguém do jazz; todavia foi um momento extraordinário: de renovação de esperanças, que o tempo pode até desgastar, mas não apagar o recado que a maioria quer um mundo melhor. Chicago foi no início do século passado a Meca dos pioneiros do jazz, que migravam de New Orleans à procura de um palco onde pudessem exercer a sua arte e dela sobreviver com dignidade. Buddy Bolden (1868-1931), o primeiro músico do jazz, não conseguiu chegar, antes se internou em um asilo, onde morreu louco. Mas Louis Armstrong, a personificação do jazz, chegou e lá pontificou para tornar o jazz a principal forma de arte norte-americana. Na mesma noite em que Obama assumia, o nosso Edécio Lopes partia. Conheci-o pessoalmente em um de seus programas Manhãs Brasileiras, quando fui debater os males do cigarro. Ele era então um fumante contumaz, mas queria não só abandonar o vício como ajudar aos seus muitos ouvintes nesta dificílima tarefa. Voltei ao programa muitas vezes para conversar sobre medicina. Edécio conseguiu parar de fumar e exortava os seus muitos ouvintes a também o fazer. Era um eficiente educador da comunidade. Há cerca de 10 anos, quando criamos o bloco carnavalesco Pinto da Madrugada,o apreço pelo carnaval nos deu mais um excelente motivo para convivermos. Ele foi o maior incentivador não só do Pinto, como de todos os que procuravam reaver os perdidos valores das nossas tradições culturais. Por isso e muito mais, suas exéquias foram as mais tocantes já vistas no Parque das Flores: poesias, clamores e os Seresteiros da Pitanguinha cantando algumas de suas mais belas composições. Soubemos pelo Ênio Lins que quando ele chegou ao céu, lá estava a orquestra de frevo do maestro Duda, na frente da qual, estavam os seus amigos Capiba e Nélson Ferreira para recepcioná-lo; fantasiados e alegres tocando e cantando, primeiro as músicas do Edécio e depois as suas próprias composições. Até o Armstrong apareceu, deu aquela risada, tocou e cantou rouquenhamente a extraordinária Wonderful World; em seguida, em homenagem ao compositor Edécio, tocou em seu mágico trompete o frevo Lembre de Mim e o bloco saiu animado como se fosse sábado de Zé Pereira. Esta festa ainda está rolando. (*) É médico e professor da Uncisal.

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