Opinião
O homem e o bicho
Na visão dos que creem, a sadia convivência com os animais deve ter começado ainda no Éden, criado sob medida para abrigar nossos estimados primeiros pais. Embora não haja registros específicos, certamente bichinhos de estimação faziam festa no indevassado regaço de Eva. É de se imaginar que os chamados ?animais selvagens?, de tão mansos, não passavam de manhosos gatinhos que se enroscavam nas pernas indolentes de pai Adão. Deveria ser um espetáculo e tanto, onças, tigres e leões rolando na relva macia sacudindo as patinhas enquanto o primeiro casal bocejava de tédio. Não vamos falar de serpentes... Expondo cruel desprezo às escrituras, a ciência insiste em negar a existência dessa fantasia mística, pretensamente descartada pelas fraquezas humanas. Para ela, ciência, até chegar a ser reconhecido como tal, o ser humano gramou muito. Nesse processo, ?domesticar animais? teria sido etapa fundamental na sua sedentarização. Superadas as dificuldades, a interação bicho-homem chegou a um grau de tamanha relevância que especialistas e palpiteiros em geral costumam afirmar que a convivência sadia com gatos, cães, cavalos, etc, seriam fatores positivos na formação do caráter das crianças. Põe-se em dúvida o perfil do sujeito que detesta animais. Contrariando essa idéia, o histórico de grandes bandidos e sanguinários déspotas é entremeado por carinhosas demonstrações de apego a bichos. Sem chegar a tanto, o general Figueiredo, confessaria sua preferência pelo cheiro de cavalos. Certamente Millor Fernandes exagera ao dizer que todo canalha que se preza curte um animalzinho. O imperador Calígula seria exemplar. Famoso pelo rosário de crimes de morte e por inexcedível pendor incestuoso, consagrava ao cavalo Incitatus comovente afeição. Depois de nomeá-lo senador romano, o sonho não concretizado era torná-lo cônsul. Pessoalmente, não sei se me tornei melhor. É que passei a infância convivendo com bichos. Homem do interior, meu pai não abria mão de algumas ?criações? ? galinhas e patos ? no quintal. No alpendre, reinava um teimoso Rex, cão de imprecisa raça. Não obstante a baixa agressividade, toda vez que pensava em gostar dele, ele me mordia. A grande verdade é que Calígula fez escola. Recentemente, um sujeito de Mato Grosso do Sul, gestor do eleitoreiro Bolsa Família, foi descoberto contemplando Billy, seu gato de estimação, com a sinecura de 20 reais. Já não se fazem Calígulas como antigamente. (*) É médico e professor da Ufal.