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Opinião

Viver n�o � necess�rio

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Nada melhor que, em uma degustação de vinhos de cepas do solo lusitano, se traga a poesia do poeta dos heterônimos e um dos maiores da língua portuguesa do século 20: Fernando Pessoa (1888-1935). Alguém, citando-o, deixou em dúvida o sentido do seu poema ?Navegar é preciso?, quando diz que ?viver não é preciso?; preciso é de certeza ou de necessidade? Acha que navegar é exato, pois tem a certeza de seu rumo. Já viver é efêmero. Indaguei a amigos que me alertaram para o fato de pescadores portugueses antigos usarem esse lema. E também os navegadores, mas sempre com o sentido de ser necessário. Confesso, até então, não conhecer o poema pois nele está a resposta. O tema principal musicado deu-nos a falsa impressão de intimidade. Com cuidado ouço Nietzsche (1844-1900): ?Aquele que explica uma passagem de um autor ?mais profundamente? do que era a intenção da passagem não explica o autor, apenas o torna mais obscuro?. Mas, Pessoa está lá para quem tirar dúvidas queira. E não deixa alguma, quando, tomando para si emblema de seus ancestrais, inicia: ?Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: navegar é preciso; viver não é preciso?. Se sentido duplo existe nesta afirmação, em Pessoa, não. Pois continua: ?Quero para mim o espírito [d] esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou./ Viver não é necessário, o que é necessário é criar./ Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso./ Só quero torná-la grande,/ ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo./ Só quero torná-la de toda a humanidade/ ainda que para isso tenha de a perder como minha.? Fez-me recordar os tempos de colégio com uma poesia muito declamada, ?Ilusões da Vida?. Pensava ser de poeta mais conhecido mas, pesquisando, soube ser de Francisco Otaviano (1825-1889), um dos patronos da Academia Brasileira de Letras, que bem antes de Pessoa dizia: ?Quem passou pela vida em branca nuvem,/ e em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ quem passou pela vida e não sofreu,/ foi espectro de homem,/ só passou pela vida, não viveu.? Porém é bom lembrar que já foi dito ser do autor o texto, até a sua publicação. Após, passa a receber interpretações de seus leitores, as mais diversas, perdendo parte de sua autoria. E como estamos em Fernando Pessoa é bom rever sua ?Autopsicografia?, quando alerta: ?O poeta é um fingidor,/ finge tão completamente,/ que chega a fingir que é dor,/ a dor que deveras sente?. (*) É bacharel em Economia.

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