Opinião
A casa de Noca
Quem conhece minimamente o linguajar do povo brasileiro sabe bem o que acontece na Casa de Noca. Nem preciso explicar que nessa famosa casa todo mundo quer mandar, todo mundo quer ser dono, todo mundo quer os melhores lugares na linda mesa que aformoseia ainda mais aquele augusto recinto. Enfim, todo mundo quer ter o direito de ser o primeiro a pôr a mão na grana que por ali corre feito maná, para o seu bel-prazer. Tem até gente capaz de dar rasteira em amigo de longa data para ter a primazia naquele desfrute que é a Casa de Noca. Nessa casa tão falada quase todos querem entrar e para isso não se incomodam de gastar rios de dinheiro, fazendo acordos os mais suados. Também não se importam de perder a vergonha ou a dignidade. (Dizem que alguns até transacionam certos produtos mais apropriados às mãos da bandidagem). Ah, sim, mas tudo isso tendo como fundo musical alguns dos mais lindos slogans ? no meu tempo era reclame ? em que pregam o amor à pátria, aos menos aquinhoados pela sorte e até a Deus. Dá gosto a gente saber que existe essa casa. E como a sua existência, pelo menos nos últimos anos, tem feito bem a nós todos ? desde os mais remediados até aqueles que vivem em casebres miseráveis ou embaixo dos viadutos ?, seria tão bom se todos resolvessem ir pessoalmente, como numa grande procissão, demonstrar àqueles senhores a sua satisfação e apreço pelo ?venha a nós o vosso reino, que ali dentro é rezado de maneira tão devotada. Alguém mais distraído que por acaso me leia, pode até se perguntar onde fica essa casa tão ?abençoada? e que para nós, alagoanos, é facílimo de indicar: fica bem ali numa esticada de beiço, quase vizinha à chamada Casa do Senhor. Este sim um lugar onde todos os que vivem na dita casa de Noca poderiam e deveriam passar pelo menos uma vez por dia, se não para pedir perdão aos pés da santa cruz, pelo menos para agradecer, compungidos, ao nosso pobre e distraído povo que foi quem, em última análise, lhes deu a chave para que eles pudessem prestar tantos favores a si mesmos, e com tanta dedicação, que ultimamente muitos até têm se recusado a tirar os seus quase sempre gordos traseiros das cadeiras em que se refestelam já lá se vão dois anos. E que longos anos, não é meus amigos? Deixa pra lá. (*) É escritora.