Opinião
Diga sim � vida
Num curso de atualização médica, realizado em Salvador, um colega cirurgião contava um fato que parecia piada, mas apenas parecia. Um candidato a Governador da Bahia, em campanha numa cidade do interior, foi acometido de forte dor abdominal resistente a antiespasmódicos e analgésicos. Foi transferido, às pressas, para a capital e os exames levaram ao diagnóstico de apendicite aguda, já com uma série de complicações. Operado, recuperou-se. Um irmão do candidato, que o acompanhava, pediu ao médico para ser operado, embora não apresentasse nenhum sintoma aparente, queria fazer uma operação preventiva. O médico recusou-se, ele insistiu. Fez os exames e, para surpresa do cirurgião, embora não tivesse sintomatologia visível, já era portador de quadro de apendicite. Foi operado, quando apresentava um quadro de apendicite do qual não tinha conhecimento. Por estranha coincidência com a cirurgia do irmão, salvou-se pelo gongo. Lembrei-me desse fato diante de uma notícia recentemente divulgada. A economista paulista, Maria Paula Merlotti, 40 anos, solteira, sem filhos, teve diagnóstico de câncer na mama e no ovário, respectivamente. Um ano depois, sua mãe teve um câncer de ovário e morreu cinco anos depois. Estranha fatalidade. As vítimas seguintes foram uma prima e a irmã da economista, vitimadas também por câncer de mama. Tendência hereditária nítida, comprovada por exames genéticos. Maria Paula tomou uma decisão radical: extirpou preventivamente os dois seios e se prepara para retirar os ovários e o útero. No primeiro caso, a cirurgia envolveu esvaziamento das mamas e imediata reconstrução com próteses de silicone. A economista tem justificado a realização dessa cirurgia, dizendo: ?Após perder minha mãe, minha irmã e minha prima para o câncer, eu não iria ficar esperando para ver o que iria acontecer; quis evitar o risco de mais uma lesão cancerígena?. O assunto é polêmico e ainda divide opiniões. Perguntei a algumas amigas o que pensam sobre ele. A maioria delas acha que é uma decisão pessoal e que merece ser respeitada. Opinião médica: ?A retirada preventiva das mamas, dos ovários e do útero já é prática comum nos Estados Unidos, somente realizada em pacientes de famílias com alto risco de câncer?. Entretanto, a maioria dos médicos brasileiros não faz esta recomendação, vez que não há garantias de que se terá câncer. A economista Maria Paula diz: ?À época, encarei meu tumor como um aviso de que deveria mudar o meu estilo de vida. Sinto-me melhor, hoje. Passei a participar de entidades que lutam contra o câncer?. Prevenção é palavra de ordem da medicina. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.