Opinião
Transporte mortal
Meio de transporte coletivo tão enraizado na cultura popular nordestina quanto irregular e altamente perigoso, os chamados caminhões ?pau-de-arara? deveriam estar restritos aos museus, como exemplo de um tempo passado. A mais recente tragédia com um desses veículos ceifou a vida de nove romeiros alagoanos, mas a crônica cotidiana brasileira está repleta de acidentes fatais envolvendo esse tipo de transporte irregular onde as carrocerias de caminhões são usadas como vagões de passageiros. Na história das tragédias das populações de todas as regiões brasileiras, figuram narrativas de muitos óbitos, sendo que grande parte dessas ocorrências fatais nos legam registros de motivações comuns aos passageiros amontoados nas carrocerias. Houve um tempo no qual romeiros e times de futebol disputavam a primazia de serem os principais usuários desses perigos ambulantes. Com o aprimoramento das leis sobre segurança no trânsito, o transporte de pessoas em carrocerias foi oficialmente proibido, mas em boa parte do País, a prática teima em sobreviver atentando contra a sobrevivência de seus temerários passageiros. Além dos romeiros e seus paus-de-arara, as rodovias alagoanas seguem sendo cortadas por caminhões com suas carrocerias lotadas de gente. É o caso dos sem-terra, em suas diversas facções, useiros e vezeiros no uso irregular dessa forma de transporte humano. Nesse particular, o curioso é que verdadeiras caravanas de caminhões lotados de militantes transitam sem preocupações vindos de seus acampamentos para a capital, onde fazem seus protestos e, ao fim e ao cabo da maratona, só retornam a suas bases embarcados em ônibus, de acordo com a legislação. Temos aqui um caso, portanto, onde a Lei só vigora num sentido. Infelizmente, para os romeiros, a Lei não os defende nem indo, nem voltando.