Opinião
Uma vela para todos
Como diriam os cronistas sociais, nesta semana a Sobrames (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores) viveu noite de brilho literário sob a direção da professora Enaura Quixabeira. É que Dario, personagem muda do conto ?Uma Vela para Dario? do paranaense Dalton Trevisan, teve mais uma vez seu melancólico fim revisitado. Anônimo, Dario caminhava apressado pelas ruas de uma cidade qualquer quando teve a infelicidade de um mal súbito, escorregou pela parede, sentou-se na calçada e morreu cercado pela curiosidade pública. Na sua via-sacra (segundo criativa interpretação da apresentadora) vivida em 14 parágrafos, enquanto estertorava, foi pouco a pouco sendo depenado, do cachimbo à aliança, passando pelos sapatos, alfinete de gravata, paletó e até os documentos de identificação. Como pano de fundo, a cumplicidade muda, ?o silêncio dos bons?. Morto em via pública, restou-lhe como companhia, na espera do rabecão, apenas uma vela apagada pela chuva, como último sinal de solidariedade. Tido como um dos maiores contistas contemporâneos, sem pretender ser moralista, Trevisan, em uma só página, com maestria, consegue sintetizar o comportamento das pessoas diante do infortúnio de um estranho em via pública. Não é o primeiro a registrar a indiferença como tônica da humanidade. Cristo, na célebre parábola do Bom Samaritano narrada pelo evangelista Lucas, discorreu sobre o abandono a que foi relegado um viajante depois de escorraçado por bandidos. Mais recentemente, Chico Buarque de Holanda e João Bosco abordaram o mesmo tema. Chico, em ?Construção?, de forma irônica, encerra seu trabalho poético sobre o suicídio de um pedreiro em depressão, resumindo o ?atropelo da morte? com o verso ?morreu na contramão atrapalhando o sábado?. ?De frente pro crime?, João Bosco faz uma gozação sobre a mercantilização (e indiferença) em torno de um morto: ?Tá lá um corpo estendido no chão?. O fato é que não é fácil ser solidário. Vivi situação parecida com o narrado por Dalton Trevisan quando um rapaz atirou na própria cabeça, na calçada de um restaurante, a poucos passos de onde me encontrava. Na época, estudante de medicina na companhia de médicos, recordo os receios em socorrer o suicida. Foi preciso que alguém lembrasse da nossa condição profissional. Tomados de brio, sensação de dever cumprido, o moribundo foi conduzido em carro próprio e entregue ainda com vida no velho PS da Dias Cabral. (*) É médico e professor da Ufal.