Opinião
Alguns est�gios do fazer po�tico de Jorge de Lima
Por vários estágios passou Jorge de Lima, no seu fazer poético: Na terceira fase do mundo de sua poesia, vamos encontrar o poeta convertido ao Catolicismo (1935) e, profundamente, empenhado, com seu amigo Murilo Mendes, em ?restaurar a Poesia em Cristo?, elaborando 45 poemas de Tempo e Eternidade. Evidencia-se a fase religiosa de sua poesia que atinge a Túnica Inconsútil (1938), o Livro de Sonetos (1949) e Mira Coeli (1950). A Academia Alagoana de Letras, cenáculo maior da cultura alagoana, lançou, ousadamente, em nível nacional, através do sonho e da coragem de Ib Gatto ?o Concurso Jorge de Lima? cujo premiado foi o ensaísta paulista Márcio Schell, com o trabalho ? A poesia como transcendência ou o mundo desenraizado de Jorge de Lima: um olhar sobre a Invenção de Orfeu. Nesse contexto, funde o poeta certa religiosidade natural, primitiva, com elementos subjetivos, partindo daí para a temática bíblica e católica. Tecnicamente falando, temos a destacar a presença do paralelismo bíblico e da prosimetria (Ode da Comunhão dos Santos). O bíblico vamos encontrá-lo em Tempo e Eternidade, o litúrgico em Túnica Inconsútil. Dessa experiência poético-religiosa, parte Jorge de Lima para aquela fase em que leva a expressão simbolista e hermética às últimas consequências. Podemos asseverar que essa fase se inicia com Mira Coeli (1950) para chegar ao apogeu na Invenção de Orfeu, poema épico, heteróclito, obscuro, hermeticamento arcano, espécie de nebulosa ou de um mundo em gestação cósmica, com clarinadas de inesquecível beleza. Trata-se de suas experiências poéticas, em que o artista entremistura o real com o irreal, o concreto com o abstrato, o religioso com o profano, o presente com o passado, o espiritual com o carnal, o animal com o humano, como se quisesse libertar de um mundo de reminiscências e fantasias, de desejos e angústias, numa duplicação e reduplicação de ?cartásis?. E no dizer de Antônio Cândido: ?É como se o poeta visionasse para aprisionar e, ao mesmo tempo, deixar, em perpétuo movimento, o tumulto caótico do primeiro dia da criação, com reflexos latentes na criatura sempre ameaçada apelo desencadear dos seus elementos, enquanto pressente a sombra de Deus que lhe sugere a antevisão da harmonia final?. Como poeta visionário, tornou-se sua poesia de difícil interpretação. Como poeta místico, numerosos críticos, experimentados ou iniciantes, sem formação teológica, ficam, na anatomia da crítica, sem saber nadar nas águas do seu oceano poético. Assim fico pensando: não sei se existe algum crítico capaz de consciente e integralmente analisar e interpretar a Invenção de Orfeu. E bato ponto. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.