loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Momento t�trico

Ouvir
Compartilhar

Cada dia traz sua alegria e sua agonia. No último domingo, amicíssimo leitor, despertei disposto e deu-me na telha ir ao calçadão da orla da Pajuçara. Calcei e vesti os apetrechos apropriados para a hercúlea tarefa e lançei-me, destemido, à rua. Entro naquele trem de gente que, em fila indiana, serpenteia o passeio adjacente à praia. Caminho sendo mais ultrapassado por outros andantes do que ultrapassando e, repentinamente, acontece. Um sujeito me alcança e crispa suas mãos em meus braços. Voltei o rosto em sua direção. Era o avaro. O avaro é um sujeito tenebroso, insuportável. Enquanto caminho, tentando desvencilhar-me, ouço sua verborragia: ?Comprei isso... vendi aquilo... comprei, de um falido, um carro por uma pechincha...? e por aí foi. Aquilo me deu nos nervos. Por um breve momento, aspirei a morte para livrar-me daquele suplício. Da boca do homem só se derramava a palavra dinheiro. Até parecia que todo o vocabulário da criatura se resumia a essa única palavra. À guisa de procurar um jornal, meto-me em uma das bancas de revista da orla, procurando escapar da figura. Ele segue em frente. Escapulo da banca em direção contrária. Creio ? e veja o caso do avaro ? que de todas as representações simbólicas que nos rodeiam, a mais fácil de adotar, como objetivo de nossa existência, é, infelizmente, o dinheiro. Essa é a verdade crudelíssima. Talvez por ser universal e fácil de contar. Quer um exemplo? Ei-lo: nem um insano colocará em dúvida que dez reais sejam melhores do que nove. No entanto, ? e você, leitor inteligente que é, haverá de concordar - os demais julgamentos da nossa vida não são assim tão fáceis. Dou-lhe outro exemplo: quem pode saber se Matisse é melhor que Michelangelo ou Caravaggio? Ou, sabe-se lá, você trocaria uma tocata de Bach pelas Quatro Estações de Vivaldi? Fica claro como o sol da Pajuçara que estes últimos julgamentos exigem um requintado esforço intelectual e um olho (ou ouvido) bem treinado para as artes pictóricas ou musicais. Não sei se me faço entender; porém, o que quero afirmar é que o dinheiro reduz nossos julgamentos a uma simples operação matemática, de tal forma que nos acostumamos a confundir preço com valor. Ora, ora, diga-me cá se não é essa barafunda entre preço e valor o que nos leva a pensar que um pintor vale mais do que outro porque obtém melhores preços em leilões nas galerias de arte? Ou achar que um vinho é superior a outro porque é mais caro, ou, ainda, imaginar que um sujeito é mais feliz que outro porque possui uma casa na praia de Ubatuba e outra nos Alpes suíços? A mim basta-me o rastro prateado que a lua cheia delineia no mar de Japaratinga. (*) É engenheiro da Casal.

Relacionadas