Opinião
De azias, esmaltes e sobrancelhas
Ao contrário da visão oficial, que costuma saudar a ?saúde de touro premiado? do presidente Lula, ponho em dúvida essa propalada higidez. Acusando azia toda vez que lê jornais ? prática rara, segundo ele ?, convenhamos que o dado é revelador de preocupante sinal de disfunção psicossomática. Como já dizia o escritor, o elogio é o melhor dos digestivos, certamente não são as notícias elogiosas que perturbam a bioquímica do delicado tubo digestivo presidencial. É irônico. Por cima da carne seca, com uma crescente taxa de aprovação, ainda assim, Lula adoece do estômago com as críticas da imprensa. O fato é que, de olho no calendário eleitoral de 2010, em plena campanha, o presidente Lula tem se esforçado para nos convencer de que os reflexos da crise no País seriam muito mais fruto da imaginação de segmentos retrógrados, interessados em desestabilizar o governo. Tomara. Tomara que as fotos de desesperados operários de montadoras fechando rodovias em São Paulo não passem de montagens fotográficas. Rogo ao bom Deus que as demissões anunciadas nos jornais originem-se da mente perversa, de hipérboles, da ?imprensa golpista?. De certa forma, Lula e seus áulicos repetem fórmula já utilizada pelo, execrado à época, hoje guru das esquerdas brasileiras, Delfim Neto (?o gordo sinistro? na definição de Teotônio ? o pai). Os mais antigos devem lembrar que, diante de cavalares índices de inflação, o então ministro Delfim os atribuía a fatores psicológicos. Aliás, a recente festança em Brasília, reunindo 3.500 prefeitos brasileiros, é a prova definitiva de que Lula não está para brincadeiras. Com um discurso agressivo, prometendo mundos e fundos, ameaçando cortar até ? se necessário, claro ? o esmalte de unhas da ministra Dilma Rousseff. É o gracejo de Lula para en passant pôr na mesa a ?mãe do PAC?. Por sinal, dona Dilma está cada vez mais jovem. Tudo bem que há uma notável diferença na altura das sobrancelhas, mas nada que um retoque com botox não possa corrigir. Nesse ritmo de rejuvenescimento, em breve estará mais para ?netinha do PAC?. De repente, a gente para e pensa como será o País governado por uma ex-aloprada assaltante de bancos... Ainda bem que, hoje, dando sinais de aparente recuperação daqueles impulsos de adolescente rebelde, a apostasia da ministra deve ter sido para valer. Seria muito chato que a futura presidente acalentasse camuflados na alma pretéritos costumes. (*) É médico e professor da Ufal.