Opinião
Os males de uma hist�ria mal contada
Imagino uma moça. Ela anda pelas ruas de Dubendorf, na Suiça. Penso em seu semblante ao deparar-se com três jovens brancos, enfurecidos, para ela, ao acaso e sem razão. Eles identificam nela traços físicos abomináveis que, de logo, são-lhe sentença: condenada! Numa erma estação de metrô, tribunal de ocasião, os algozes arrastam a estrangeira, torturam-na e provocam-lhe o aborto de gêmeos em terceiro mês de gestação. Ainda deixam provas da autoria da atrocidade, exemplo aos demais: ?Não-arianos, estamos em ação!?. Imagino essa mesma moça. Ela anda pelas ruas daquela mesma cidade e daquele mesmo país. Preocupam-lhe diversos temores, alvoroçam sua sobriedade incontáveis anseios, destroem sua sanidade fatores inimagináveis... De algum modo ela requer a atenção. Atenção de seus pais, de amigos, de um par afetivo. Ardilosamente, maquina um plano: vai a uma estação de metrô vazia, munida de instrumento cortante. Fere-se no ventre, braços e pernas. Avoca uma gravidez, abortada face ao ataque sofrido. Por fim, cria uma história fantasiosa de temíveis ?skinheads?. Nos dois casos, vejo ? e não mais imagino ? um País consternado pela dor: de uma de suas filhas, agredida e ultrajada em solo estrangeiro, em enojante ação xenófoba, que vilipendia todas as conquistas tolerantes arduamente conquistadas, sobretudo após a Segunda Grande Guerra. Ou pela dor dessa mesma filha que, em intrínseca crise personalítica, imputa inexistentes responsabilidades e cria transtornos de ordem diplomática entre duas nações que, de longa data, cultivam fraternos laços... Ou, ainda, dor da incredulidade e incerteza de um povo em não se saber que acusação se aproxima mais da verdade dos fatos: a do governo suíço, apontando a insanidade da pretensa vítima, ou a da brasileira que perdeu seus filhos resultado do ato de violência. A verdade, com quem está? Não sabemos se a imprensa manterá o interesse no caso até que algum laudo, com suposto status de definitivo, surja, atestando a violência de neobárbaros ou a perturbação mental da brasileira. Todavia, temos ciência que, seja qual for a conclusão, ambas apontam para comportamentos sociais indesejáveis, um mais e outro menos terrível: o de menor proporção é o efeito da comoção inicial, agora convertida em aversão à autora de uma ação caluniosa, inconsequente, capaz de enganar uma nação inteira. O outro, maior e mais nefasto, será a triste constatação de que, apesar dos esforços, o vírus nazista ainda infecta muitos e destrói tantos outros. (*) É jornalista e oficial da PM-AL.