Opinião
Ingratid�o a Macei�
Parece que estou vendo, dileto leitor. Todo ano é a mesma coisa. Acho hilário como os fatos se repetem, enfadonhamente, anos após ano. Nos botecos, no trabalho, nas reuniões de família não se toca em outro assunto. É se prenunciar o carnaval e, como por encanto, todos dão tratos à bola em descortinar o local para onde irão, escapulindo de Maceió e dos seus problemas, em busca de uma pretensa paz e sossego. O leitor, atento e perspicaz que é, retrucará que tal fenômeno não ocorre apenas à época momesca. Também concordo. Basta um feriadão qualquer e estabelece-se um alvoroço de fuga na cidade como se ela estivesse prestes a ser invadida por guerrilheiros ou como se um asteróide fosse desabar sobre ela. Neguem, caro leitor, a mim, o alimento, a água, o prazer, a alegria, o vinho e uma tocata de Bach; no entanto, não me neguem a verdade. E existe aqui uma verdade gritante, óbvia: nós não passamos de uns ingratos. Bem sei que parece compreensível que muitos de nós tenhamos, muitas vezes, acessos de desagrado e de rejeição para com a cidade que habitamos. Que, em algumas épocas, alguns tenham ganas de mudar-se para outras cidades ? Paris ou Bagdá, por exemplo ?, porém não o fazem. Inclusive, poderíamos indagar a estes últimos se, chegada realmente a oportunidade de transferir-se para a cidade-luz, eles a aproveitariam de fato. Creio que não; porém, nunca se sabe. O ser humano, em qualquer lugar do mundo, detém a característica de fincar-se em uma relação conflituosa com a cidade onde mora. Em Maceió, por exemplo, nos revoltamos com a pobreza abjeta da nossa periferia, inundada de favelas entregues à última promiscuidade, com crianças a brincar em valas de esgotos a céu aberto; nos indignamos com a pachorra do poder público que tolera toda sorte de desgraça, miséria e violência que afeta as regiões mais deserdadas da cidade. Nos quedamos entristecidos com a feiúra dos pontos de entulho espalhados nas ruas esburacadas e com a montanha do lixão que a cada dia se agiganta em Cruz das Almas. Portanto, temos sempre latente o desejo de arredar o pé daqui. Achamos que a perfeição sempre estará em outra localidade. E curioso é o fato de, em nossas viagens, irmos a outras cidades com os mesmos defeitos ou problemas, alguns até mais graves do que os que aqui temos. Resta-me o consolo de que, ao fim do feriadão, guardadas as fantasias e acalmados os idílios, acabaremos por retornar à nossa boa e velha Maceió que acolherá seus filhos ingratos como apenas uma mãe sabe fazer. (*) É maceioense por adoção.