Opinião
Quando o latido � maior do que o cachorro
Não sei dizer quanto tempo vai durar a euforia da eleição de Barack Obama. Talvez dure o suficiente para causar muitos desenganos nos milhões que votaram desejando mudança. Ou, quem sabe, nem dure tanto, já que as peças do xadrez começaram a se mexer. O neoliberalismo e as guerras de Bush deixaram uma enorme mancha de sangue, um déficit fiscal medonho e um recorde de impopularidade. Com a rejeição no topo, o xerife texano sujou demais a face da política americana. Os que disseram ?sim? ao Barack estavam mesmo era dizendo ?não? ao que Bush representa. Mas o Tio Sam queria um rosto novo para camuflar sua política de rapina pelo mundo. Alguém que segurasse a onda de insatisfação no planeta, que criasse esperanças de dias melhores, que fizesse tudo isso, mas não parasse a usurpação econômica. Encontrou no jovem e carismático Obama, o rosto ideal. Podem argumentar: ?Vai negar que a eleição do 1º presidente negro dos EUA é um marco??. Não! Isto é inegável, sobretudo onde o racismo chegou a ser lei. Porém, às vezes é preciso ceder um pouco para não perder tudo. O Império fez uma concessão histórica ao permitir um negro na presidência. Mas só o fez porque havia algo mais importante do que a cor da pele em jogo. Os magnatas que o digam. Obama é o Sancho Pança do capitalismo. O setor financeiro, que está arrancando os cabelos por causa da crise, agraciou o democrata com US$ 16 milhões na campanha. E não foi um favor. A crise econômica não permite titubeações. Ou se está de um lado ou se está do outro. E o presidente não se assemelha a um vacilante. Enquanto milhões perdiam suas casas, Obama aprovou o plano de Bush de US$ 700 bilhões para os bancos. Quer dizer, já havia escolhido um lado antes mesmo de vencer. Há uma ilusão. E o problema com as ilusões é que, além dos atrasos, deixam profundas decepções. Na posse, mesmo com um discurso mais pé no chão, Obama reforçou a farsa da mudança. Nada estranho. Esquisito seria se ele dissesse a verdade. ?Eu sou o continuísmo! Salvarei os bancos. Os pobres que se virem!?. Isso seria estranho. Obama é a metáfora do latido maior do que o cachorro. Com um discurso redentor, o democrata latiu alto e gerou ilusões. Mas não é o cachorro grande que dizem que é. Os jornais perguntam: seria Obama um messias? Talvez. Mas um messias para apenas um dos lados, pois a História já provou a impossibilidade de salvar os dois. O mundo adora Obama. E o capitalismo também. (*) É articulista.