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Opinião

Da eterna fantasia carnavalesca

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Quando no calor do começo da tarde de sábado passado na Pajuçara um grupo de figuras da melhor sociedade de nossa terra, fantasiados de soldados romanos, no meio da multidão de mais de cem mil pessoas, ainda tinha disposição para carregar um tablado com um anãozinho, que representava a rainha egípcia Cleópatra, e não só brincavam, como divertiam milhares de outros foliões, a essência do carnaval estava mantida: a fantasia é composta de uma vestimenta que libera e desnuda o espírito e o bom humor. Os historiadores divergem de onde remontam as origens dos festejos de Momo. Seriam as festividades em homenagem à deusa Isis, no Egito dos faraós; talvez as lupercais da Grécia clássica;ou por que não as saturnais da Roma imperial? Péricles, o historiador romano que tanto influenciou César, em seus relatos daquela época, mostra-se enternecido pelas momentâneas inversões de valores: durante as saturnais, os senhores eram quem serviam os seus escravos. No diversificado carnaval pernambucano, certamente o mais democrático do País, inspiração do Pinto da Madrugada, os caboclos de lança do maracatu rural, com seus coloridos chapéus, originalmente, na sua maioria, cortadores de cana da zona da mata maurícia, são os astros das noites do Recife antigo. Quando desfilam altaneiros pela Rua do Bom Jesus, são aplaudidos pelos seus patrões. Naquele momento, se abraçariam e tomariam uísque do mesmo copo. Junto aos refinados romanos e a sua Cleópatra que tanto brincaram e encantaram no desfile do Pinto da Madrugada no sábado passado, estava um popular fantasiado que produzira e apresentava orgulhosamente delicado artesanato: um pequeno pinto que ao mínimo estímulo, tremia e comia milho; era o Pinto Elétrico. Tantas e tão belas eram as fantasias em plena rua, que no Jornal Nacional o destaque que se deu ao bloco foi elas. Ressurge assim o carnaval em Alagoas, ou melhor, o pré-carnaval, renovando-se em sua essência maior: o jogo lúdico e dionisíaco, quando os adultos se tornam crianças, os desconhecidos se abraçam, as diferenças sociais são superadas e se misturam ricos e pobres. O carnaval de rua, realizado desta forma, com músicas cantadas e compartilhadas por todos, que brincam sem cordas, sem separações de classes sociais e sem violência, embora versão ilusória e momentânea, se reafirma como a única atividade humana fugazmente socialista, quando o ideal de igualdade e fraternidade, tão perseguido e inalcançável, naqueles dias se concretiza. (*) É médico e professor da Uncisal.

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