Opinião
Al�m de um princ�pio de desprazer
?A vida é uma estória contada por um tolo, cheia de som e fúria que nada significam.? (Shakespeare) Existem bons filmes de guerra; alguns ótimos: A um Passo da Eternidade, Gallipoli, Esperança e Glória, Apocalipse Now, Nascido para Matar, Inferno nº 17... Além da Linha Vermelha, baseado em livro de James Jones e dirigido por Terrence Malick, mais que um ótimo filme de guerra, é um belo filme. Sim belo: ferro e fogo, gritos e mortes, explosões e dor, som e fúria; como de se esperar em filmes de guerra. O que torna, então, belo o filme de Malick? Revi agora o filme na TV, vários anos após sua estreia no cinema em 1998. Malick é um cineasta bissexto. Seu currículo não passa de quatro filmes (o primeiro Terra de Ninguém de 1973, depois Cinzas no Paraíso de 1978 e por fim, O Novo Mundo de 2005), talvez por não fazer concessões à indústria fast-food de Hollywood, talvez por um perfeccionismo extremado ou mais provavelmente ambos. Em Além da Linha Vermelha encontramos uma divisão de soldados norte-americanos prontos para enfrentar, e é o que veremos em seguida, o exército nipônico na sangrenta batalha de Guadalcanal. Este local é uma ilha do arquipélago melanésico que constituía uma área estratégica para os interesses dos dois rivais na guerra do Pacífico (por estranho que possa parecer a expressão ?guerra do Pacífico?). O território ocupado pelos japoneses em julho de 1942, acabou por ser tomado pelos americanos em fevereiro de 1943, após seis longos meses de luta, é o que a História nos conta. O que não sabemos é acerca dos homens que lá estiveram, seus anseios, seus medos, seus sonhos, suas vidas, e isto nos é revelado através do olhar sensível e onisciente do diretor. O recurso para tal é um mergulho introspectivo e arguto nos pensamentos e reflexões de oficiais e soldados, narrados em off por alguns deles. A partir disto, um manifesto antibélico de 170 minutos de duração é construído. A câmara nos mostra a geografia da ilha em amplas panorâmicas e competente fotografia, recursos já utilizados por Malick nos seus outros dois filmes anteriores e também depois em O Novo Mundo. De maneira análoga, a somatória dos pensamentos narrados nos é mostrada como numa ?panorâmica psicológica?, compondo um quadro geral da barbárie da guerra e da insensatez humana. Isto fica ainda mais patente quando são entremeadas cenas de batalhas com cenas da exuberante natureza da ilha, seus habitantes e sua fauna ou ainda belas recordações dos soldados junto ao que de belo se deixou para trás em nome de uma guerra da qual pouco se compreende. Uma guerra pode ser inevitável ou mesmo justa (há quem diga), o que não a impede de ser estúpida sempre e a vivência única e em última análise incompartilhável de cada um daqueles envolvidos é a maior prova disto. Deste ângulo, sob uma perspectiva essencialmente humanística, não existe lado bom ou mau, culpados, inocentes, ou mesmo vencedores. Todos são perdedores, nós inclusive, e somos impelidos a sentir pena do outro (os japoneses), embora em nenhum instante do filme este outro lado tenha sido mostrado, exceto do ponto de vista americano, o que só reforça e dá sentido àquilo que o filme quer mostrar ou denunciar: som e fúria, a guerra e seus horrores. (*) É cinéfilo alagoano.