Opinião
Bem-aventurados os tristes
A tristeza é um sentimento profundo, é linha direta com a alma e as entranhas. Dentro de nossa cultura, possuem as pessoas a imperiosa tendência de pensar que a tristeza é algo negativo que se deve evitar a cada instante. A mídia, em geral, procura, de todas as maneiras, exorcizar a tristeza e as lágrimas. Em geral, erroneamente, chamamos a atenção das crianças: ?Não chore, menino, nem parece um homem chorando como uma menininha!? Esses meninos, quando crescem, vão achar que chorar não é ser viril. Não poucas vezes, o homem que chora é ridicularizado, no silêncio; tratando-se de mulheres, são tidas como histéricas. Tristeza e lágrimas são, ao contrário, sentimentos e atitudes de grande solidez e de tamanha importância que ajudam a centralizar, uma vez por todas, a existência. Brotam do íntimo da pessoa e são a garantia de que não se finge: se alguém chora é porque pode rir. Chora-se pelo amigo e por um ser querido que se foi. Trata-se de um sentimento autêntico e profundo. Pode-se derramar lágrima pela cena dramática de um filme: não pela cena em si, senão pelos valores e sentimentos profundos que evoca. A tristeza não deixa de ser o que de mais profundo e autêntico podemos exprimir. A tristeza é o apelo interior, íntimo que pede à pessoa para parar. Diz-lhe que acaba de viver algo de suma importância que não deve ser logo removido. Um homem envolvido na tristeza começou a frequentar uma clínica psiquiátrica, em busca de uma vida calma. Deu-lhe o psiquiatra várias saídas para que ele chegasse ao equilíbrio de poder sorrir. Finalmente, deu-lhe um conselho prático: quer você acabar com a tristeza? Vá amanhã a um circo que está armado em plena praça e você vai aprender a rir e gargalhar com o ?palhaço ventania?. ? Senhor doutor, disse o paciente, ?eu sou o palhaço ventania: faço que alguém sorria, quando eu mesmo não venço a minha tristeza?. Quando chegamos a sentir a tristeza como um bem para nós, então ela nos presenteia com sua gêmea: a alegria. Somente assim saberemos viver com alegria o pôr-do-sol e o sorriso dos outros, a ternura da brisa acariciando o rosto e a delicadeza do luar nas noites de trevas. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.