loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Medida in�cua

Ouvir
Compartilhar

A excomunhão para todos os que participaram do aborto a que foi submetida a garota pernambucana teve uma relevância, diria, inusitada. A esse respeito, lembro de uma discussão de bancas de colégio, quando o irmão marista, reagindo à provocação de um aluno, assegurou a previsão de pena de excomunhão aos maçons. A informação cairia como uma bomba na cabeça de alguns adolescentes cujos pais pertenciam à ?secreta? sociedade. Naquela época, ter um pai excomungado era qualquer coisa de maldição. O fato é que a maçonaria era olhada como uma organização poderosa cercada de mistérios, de expressões e gestos enigmáticos, de ?segredos?, vedados aos não-iniciados. Dizia-se que nem o mais boquirroto dos membros ousaria violar o baú desses sigilos. Um dia, soube que um parente entrara na organização chegando a alcançar uma posição de destaque dentro da hierarquia. Os temores sobre sua excomunhão acabariam quando o piedoso, quase um santo, fazendo leituras e homilias, distribuindo hóstias ao altar de uma das mais tradicionais igrejas da cidade. Ainda nos tempos de colégio presenciei o desabafo de um irmão marista injuriado com o que ele qualificaria de ?intolerância? do bispo por não ter permitido missa pública na catedral, na intenção da alma do infausto presidente americano J. Kennedy. Sua condição de ?maçom? teria determinado a decisão episcopal. A revolta do marista era maior porque, anos antes, a catedral teria cometido suposto deslize ao abrir suas portas para encomendar a alma de ?um suicida?, no caso, ninguém menos que Getúlio Vargas. (Os suicidas, na época, não teriam esse direito). Em relação à recente excomunhão em massa de todos os que participaram do aborto da menor pernambucana, há várias leituras. Em princípio, ser excomungado não tem mais o mesmo estigma de antanho. Amparados por uma lei específica sobre o aborto, com certeza, muitos dos excomungados não perderão um segundo de seus sonos. A Igreja por seu turno tem seus cânones. Benevolente com os casos de pedofilia nos seus domínios, mantém-se agarrada a preconceitos (camisinha, celibato etc) que contribuem para a anemia da fé. É respeitável, contudo, a posição em relação ao aborto. Não há que negar a existência de vida nos seres intrauterinos. Por esse viés, o aborto é um homicídio. Ocorre, no entanto, que as leis dos homens abriram brechas que permitem sua realização. Pesando tudo, hoje, a excomunhão expõe-se ao risco de virar folclore. (*) É médico e professor da Ufal.

Relacionadas