Opinião
Influ�ncias na forma��o cultural
É a segunda vez que respondo a uma questão levantada por estudantes numa reunião escolar: ?Que livros influenciaram sua formação cultural?? Repeti um comentário que já havia feito numa ocasião anterior; quando estudante do ginasial, hoje 1º grau, lia de fôlego os livros infantis de Monteiro Lobato e me deleitava na extraordinária criação artístico-literária do autor, com personagens marcantes, modernamente celebrizados pela televisão. Já no curso superior, uma obra abriu minha visão para a realidade do Sertão nordestino, luta cruel pela subsistência, tragédia de fatores climáticos implacáveis. Os Sertões, de Euclides da Cunha, mostrou-me uma realidade até então desconhecida. Textos longos, secos, revelam preocupação com a concretude da realidade: o meio, a raça e o momento. Apesar da magia verbal são dramáticas as descrições. Antes de iniciar rápidas observações sobre essa obra ? realista ontem e hoje ? citei a imagem poética do parnasiano Ronald de Carvalho, quando enfoca a miscigenação da qual resultou o homem brasileiro. Diz: ?A alma brasileira nasceu de três grandes melancolias: deu-lhes a saudade portuguesa, a doçura da sensibilidade ibérica e o fatalismo da imaginação oriental; ajuntou-lhe o índio a inquietação do terror cósmico; acrescentou-lhe o africano a queixa amarga de sua humilhação e o travo de sua revolta sempre prestes a explodir?. Euclides da Cunha, engenheiro militar, descreve o Sertão inóspito, a seca escaldante e a coragem dos que habitam a região. É dele a frase: ?O sertanejo é antes de tudo um forte?. Nessa época predominava na Europa o conceito de ?raça pura?, tentando provar que a mestiçagem contribuía para a criação de uma sub-raça. Anos mais tarde, coube ao antropólogo alagoano Arthur Ramos provar cientificamente que o brasileiro, produto de três raças distintas, em nada ficava devendo aos europeus. Se você acredita em destino ou no fatalismo mulçumano: ?maktub? (estava escrito, tinha de acontecer), acompanhe um fim de história pouco feliz. Consagrado nas letras e na carreira militar, Euclides da Cunha viveu o drama de uma esposa infiel, fato que contribuiu para o acometimento de uma neurose de angústia. Resolveu, em plena crise, enfrentar o amante da esposa. Após errar dois tiros, foi vitimado por um tiro certeiro na fronte. Anos mais tarde, seu filho resolveu vingar a morte do pai e, igualmente, foi morto pelo amante de sua mãe. Nesse caso, pelo nível da tragédia, a realidade supera a ficção. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.