Opinião
Maragogi: sol, praia e esgoto
Passeava por um hipermercado em Maceió quando me encontrei com um colega corretor de imóveis, recém-egresso de Maragogi e que fora tentar a sorte na capital. Terno azul impecável, broche da imobiliária no peito e uma queixa a me fazer: ?Li sua reportagem na Gazeta de Alagoas sobre os esgotos na praia. Você deveria escrever sobre as coisas boas de Maragogi?, contestou. Aceitei a crítica, mas deixei um comentário: ?Se não tratarmos das coisas ruins, cobrando soluções aos órgãos competentes, as coisas boas vão desaparecer?. Ele apertou minha mão e saiu em busca de clientes dispostos a comprar uma gleba no Litoral Norte de Alagoas. Quando cheguei a Maragogi para trabalhar como repórter em 2004, encontrei uma cidade toda removida. As ruas estavam sendo abertas para a instalação do saneamento básico que deixaria a cidade 100% saneada. Acompanhei as obras, vi botijas serem arrancadas de vias públicas, o transtorno, a apreensão e o otimismo dos moradores e empresários com as benesses do investimento, orçado em R$ 12 milhões, verba do Banco Interamericano de Desenvolvimento, conseguida por meio do Prodetur. Eu só não vi, no entanto, depois da obra inaugurada, o esgoto deixar de desaguar na praia. E comecei a questionar: como uma obra tão cara não tem eficácia? Ouvi desculpas das mais variadas. Corri atrás da verdade. O projeto de saneamento de Maragogi foi elaborado ainda na metade da década de 1990, dentro do Programa ?Costa Dourada?, lembra dele? E só foi aprovado no novo milênio. Dessa forma, novas áreas urbanas, que surgiram após a elaboração do projeto, não foram contempladas com a rede de saneamento, a exemplo do Conjunto Tereza Verzeri. Esse foi o primeiro grande erro. Depois, os tecnocratas do governo e as construtoras ignoraram um dos maiores conjuntos habitacionais, o Adélia Lira, conhecido como ?Grota?, onde mora o grosso da população pobre. Para eles, como existia saneamento supostamente em uso no conjunto, não seria necessário expandir as obras do Prodetur até lá. Esse foi o segundo erro. Chegou a hora de o Ministério Público acionar as empreiteiras e o governo do Estado para que corrijam as falhas deixadas durante a implantação do novo sistema de saneamento. O poder público deveria concentrar forças para angariar recursos no sentido de ampliar a rede coletora, beneficiando conjuntos e distritos que foram ignorados. Definitivamente, praias sujas não combinam com um destino turístico que pretende ser um dos mais conhecidos do Brasil. (*) É jornalista.