Opinião
O assalto
A vida tem propriedades fascinantes. Encruzilhadas cotidianas que nos expõem cruamente. Na cama, ao volante, na prática política... São todas cenas de grande revelação. Outro dia, porém, um amigo encontrou-se de novo numa que talvez seja a mais reveladora de todas. O assalto! O assalto oscila entre a celebração do ridículo e o extremismo da barbárie. Mesmo com sua experiência em ser assaltado (umas dez vezes, eu acho), meu amigo surpreendeu-se outra vez diante do nosso Frankenstein social. A pobreza aguda, presente nos bolsões de miséria alagoanos, empurra cada vez mais gente para a criminalidade. À noite, meu amigo voltava da escola apressado; o Centro de Maceió estava vazio. Da outra ponta da rua, um sujeito caminhava em sua direção. Ele já sabia o que estava para acontecer. ? Isso é um assalto! ? disse o sujeito, apontando uma arma. ? Ok. Estou acostumado. Conheço o procedimento. O que vai ser essa noite? ? quis saber o amigo. ? Passa a bolsa! ? Calminha aí. As coisas não são bem assim. Vamos negociar. Pra quê você quer minha bolsa? Só tem livros. Pra quê você vai querer meus livros? O ladrão ficou pensativo. Concluiu: ? Tá. Beleza então. Não levo a bolsa. Mas me dá a carteira. Rápido. ? Não. Também não é assim. Vamos negociar. Pra quê você quer minha carteira? Tá cheia de documentos. Pra quê você vai querer meus documentos? Nova reflexão do bandido, desta vez mais profunda. ? Tá, tudo bem. Deixo a carteira. Mas me passa pelo menos o dinheiro, né? ? Agora sim. Agora estamos começando a nos entender. Veja, tudo bem que nos assaltem. Mas que tenham o mínimo de critério. Você não acha? ? Acho sim. Na verdade isso aqui nem é um assalto. Eu tô é acelerando o processo de distribuição de renda, tá ligado? Agora passa a grana. Meu amigo tinha R$ 20,00 na carteira. Tirou apenas dez. ? Ah, não! Quê que isso, maluco?! Tá querendo me passar a perna?! Deixa de doidice e me passa os outros dez que eu já vi daqui! Nada de trapacear. Fair play, brother. Fair play. ? Tá. Tá bom. Foi mal. ? disse o amigo, entregando os outros dez. O caso exige uma reflexão. Só pra constar. Tenho certeza de que a situação não pode ficar pior. Chegamos ao ponto mais alto da ?civilização?. Já estamos criando regras para o ?bom? funcionamento da barbárie. (*) É jornalista e professor.