Opinião
Um poder � deriva
Desde que o Parlamento é Parlamento, seu funcionamento é a referência central para o exercício democrático, posto que a outra esfera de poder político, o Executivo, ainda hoje, apresenta-se sob várias formas (sobrevivem reis, rainhas, presidentes e primeiros-ministros), de maneira que para a casa parlamentar é-se dirigida a atenção da opinião pública. Preservar o parlamento em funcionamento tornou-se um símbolo democrático e o seu inverso, a marca das ditaduras. Essa referência não é coisa do século 20, e os registros dessa dicotomia está na base dos modernos estados desde os primórdios da modernidade, cujo nascimento revestiu-se de particular tragicidade graças a escaramuças em torno do funcionamento ou não das instâncias parlamentares. Assim foi nos idos de 1789, quando um dos mais significativos estopins para a explosão da Revolução Francesa foi o fechamento, por ordem do Rei Luiz 16, da assembleia conhecida então como ?Estados Gerais? em 20 de junho de 1789. Desde então, fechar o parlamento tem sido o gesto típico das ditaduras, enquanto rebelar-se contra isso tem sido a marca da cidadania. Desde então, ao que se saiba, nunca um parlamento teria renunciado ao funcionamento, mesmo que sob as piores condições. Uma novidade, porém, se apresenta: pioneiramente, um Poder Legislativo pratica a automutilação, castrando-se voluntariamente em protesto sem causa nem efeito digno de consequências positivas. A Assembleia Legislativa de Alagoas fecha-se à sociedade por pura impotência e incompetência de resolver seus próprios problemas. E cria um grande dilema para a democracia, pois justifica a perigosa tese de sua própria inutilidade enquanto poder. Atônito, o povo alagoano se decepciona ainda mais com seu parlamento desgastado, à deriva, onde inexiste, além da Comissão de Ética, a lógica do bom senso.