loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Aborto sem hipocrisia

Ouvir
Compartilhar

Cobrou-me um membro da Mesa Administrativa da Santa Casa de Maceió, homem esclarecido e atuante, que me pronunciasse sobre o caso do aborto praticado em uma menor de 9 anos que foi estuprada pelo padastro e estava em decorrência desta animalesca agressão portando uma gravidez gemelar. Já exteriorizei anteriormente minha posição sobre o aborto e volto a fazê-lo, até porque a ciência, que sempre teve e tem tantas dificuldades para avançar e trazer benefícios reais para a humanidade, mais uma vez precisa superar as pesadas barreiras do atraso e do preconceito. A medicina foi novamente solidária e favorável à vida neste episódio: poupou a maior vítima, a menor estuprada, não só de manter uma gestação altamente ameaçadora para a sua própria sobrevivência, como a de ter que rejeitar os filhos no futuro, frutos de um ato monstruoso, que tinha tudo para trazer ao mundo dois párias, que iriam engrossar as imensas fileiras de deserdados que abarrotam as ruas e tornam a segurança pública no Brasil uma das nossas maiores mazelas. Caso o bispo avaliasse minimamente o perfil dos milhares de marginais que tornam Recife uma das cidades mais violentas do País, encontraria um padrão similar: são seres que não tiveram lar, nem ambiente familiar, nem afeto: rejeitados, foram vagar pelas ruas. Perfil semelhante aos dos marginais que praticam crimes bárbaros diariamente em todo o Brasil. Embora seja proibido por lei, praticam-se abortos clandestinos aos milhares no Brasil; 5 milhões/ano. 250 mil complicam e chegam aos hospitais públicos. As meninas ricas o fazem confortável e seguramente nas clínicas privadas. As pobres o fazem clandestinamente e incontáveis vão à morte. É uma das maiores discriminações sociais vigentes no País. Até quando a sociedade vai tratar isto somente com dogmas, fugindo da realidade? Segundo o ministro Temporão, esta questão ainda não foi resolvida porque não afeta os homens que não engravidam. Alerta também que onde os abortos foram descriminalizados, reduziu-se enormemente a sua realização. Obviamente o uso de anticoncepcionais e de camisinhas deve ser implementado, tentando se evitar as gestações indesejadas. Mas, o número de mulheres que por vários motivos precisam recorrer ao aborto continuará a aumentar entre nós e os abortos clandestinos continuarão sendo feitos. Questão de saúde pública que precisa ser debatida sem hipocrisia e sem fazer média. (*) É médico e professor da Uncisal.

Relacionadas