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Sebasti�o da Hora

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JOSÉ MEDEIROS * Uma cena que não se repetirá nos dias de hoje: prova oral no vestibular de Medicina após a prova escrita. O professor ficava face a face com o vestibulando. Era assim nos idos de 1952, na recém-criada Faculdade de Medicina de Alagoas. A Faculdade mostrava que viera para ficar, sob aplausos da sociedade alagoana. O examinador era o professor Sebastião da Hora e o aluno o signatário deste artigo. O ponto sorteado versava sobre ?Leis de Mendel?, experiências sobre genética e hereditariedade de plantas. Exultei, o tema era bom. Mas a alegria durou pouco. O examinador conduzia o assunto para uma avaliação bem mais profunda do que eu esperava. Eu me julgava ótimo nesse assunto, mas fui desmoronando pouco a pouco. No fim, sem ter mais o que dizer, saí-me com essa: na minha opinião, professor... O ?Bastião? bateu na mesa: ?Vou dar-lhe uma boa nota pelo que respondeu, mas não admito que estudante tenha opinião própria sobre pesquisas genéticas já comprovadas?. O tempo passa rápido, tudo parece ter sido ontem; de repente, encontro-me numa solenidade na Sociedade de Medicina de Alagoas, em que se homenageia o centenário desse mestre emérito. Momentos de emoção coletiva e de evocações. O médico-professor Geraldo Vergetti, numa noite inspirada, discorreu sobre a vida do Mestre Hora. Vergetti comandou o movimento para que o Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina recebesse o nome de Sebastião da Hora. Por sua vez, o cardiologista Flávio Loureiro, num valioso trabalho de rememoração histórica, lembrou a introdução da eletrocardiografia na medicina alagoana e o primeiro eletrocardiograma aqui realizado, assinado pelo professor homenageado. Sebastião da Hora nunca buscou ser o ?mocinho? que agrada a todos. Foi fiel às suas idéias e pontos de vista, mesmo quando lhes causavam prejuízos. Autêntico, autoritário se necessário, era profundamente humano e sensível aos dramas e dores dos mais necessitados. Durante sua carreira profissional, o que nele mais impressionava não era somente o saber médico, mas a cultura humanística e política. Ciência e cultura para ele não deveriam ser meros ornamentos pessoais, mas um compromisso com milhões de brasileiros que viviam (vivem) em condições subumanas, de miséria e baixíssimos níveis de subsistência. Uma admirável coerência entre a palavra e o proceder, entre o que pensava e o que fazia. Naquela noite, foram muitas as reminiscências da vida e da obrade Sebastião da Hora. Ali, se encontravam seus contemporâneos, alunos, admiradores e familiares. Suas filhas: Valéria (minha amiga-irmã, colega de turma), Creuza e Flávia. Lembrei-me do Lúcio, um jovem alegre, que nos deixou precocemente. Cem anos de seu nascimento se passaram e ali estava, em espírito, o Sebastião da Hora, redivivo, na ausência sentida de sua presença. Diz-se que o homem não morre de todo, continua vivo, enquanto perdura na lembrança e no sentimento dos que o conheceram. É o que penso e o que senti naquele momento. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO

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