Opinião
O esc�ndalo do Evangelho
Aborto, eutanásia, casamento gay, relações pré-matrimoniais, divórcio, uniões conjugais livres, preservativos, anticoncepcioniais... Eis alguns temas morais ? sobretudo ligados à moral sexual e à moral da vida ? que causam, não raramente choques, incompreensões e mal-entendidos, entre aquilo que a Igreja ensina e defende e a posição da mentalidade dominante na sociedade contemporânea. Alguns até mesmo ? e vimos isto recentemente no Brasil ? acusam a Igreja de esquecer que o Estado é laico e que existe uma separação entre Igreja e Estado. Não é preciso muito para compreender que tal afirmação é tola e mentirosa: defender suas opiniões, tentar convencer os legisladores a atuarem de acordo com o que se julga correto e demandar na Justiça aquilo que se julga ser direito é prerrogativa de qualquer pessoa ou qualquer instituição numa sociedade democrática. É hipocrisia e intolerância querer negar isto, fazendo calar a voz dos cristãos! Obscuro e antidemocrático é quem acusa a Igreja quando esta legitimamente recorre às instâncias do Estado de Direito desejando fazer valer suas opiniões. Quanto aos choques não poucas vezes verificados entre a moral cristã e a atual sociedade, eles acontecerão sempre com maior frequência. Não há como ser diferente, e o motivo é simples e claro: a inspiração da moral cristã é o Evangelho ? aquele que será sempre escândalo para a pura lógica humana e que para ser compreendido em sua plenitude exige conversão, isto é, radical mudança de modo de pensar, de mentalidade. Quanto à inspiração da nossa atual sociedade, trata-se de um humanismo ateu prático, fundamentado num humanismo doentiamente antropocêntrico, que não considera nenhum absoluto a não ser a ?verdade do relativo?, do que é politicamente correto e das opiniões que são ditadas pela mídia. A Igreja deve ser capaz de ouvir os apelos do mundo, dialogar, procurar bem explicar as motivações de suas exigências morais; mas, por outro lado, deve recordar que o próprio Cristo advertiu a seus discípulos que seriam mal compreendidos e rejeitados por causa do seu nome e deveriam, portanto, estar prontos a levar a cruz junto com o seu Senhor. Esta é a questão. O mundo crucificou Jesus, e a Igreja não pode fugir deste destino, sob pena de infidelidade ao seu Senhor! São Paulo mesmo advertia que a amizade com certa mentalidade do mundo é inimizade com o Senhor. Por isso, a Igreja deve ir adiante, serena e firme, com os olhos fixos no seu Senhor crucificado e ressuscitado, a todos respeitando, mas sem medo algum de proclamar o Evangelho, que se torna um escândalo para o mundo e salvação para os que realmente crêem. (*) É sacerdote e professor de Teologia.