Opinião
Medicina e literatura
Em tempos de saudades do mestre Ib Gatto, que completaria 95 anos neste 20 de março, respondo à convocação do imortal Carlito Lima para ?cometer? uma palestra sobre Medicina e literatura. Tendo a palavra como ferramenta de compartilhamento, é linguagem corrente que muitos médicos conseguem fazer boa literatura pondo no papel experiências extraídas do labor da profissão. Desafiada a encarar ?o bafo da magra?, não obstante, nem só de sofrimento, desenganos e morte alimenta-se a arte hipocrática. A verdade é que por predisposição genética e/ou perseverantes tentativas, muitos médicos acabam por se revelar escritores palatáveis. Nesse aspecto, as colunas de ?opinião? dos jornais da cidade confirmam que, dentre profissionais de diferentes áreas, esculápios disputam espaço e não fazem tão feio. É mérito complicado falar do intelectual que se torna médico ou do médico que namora a literatura. A história do reumatologista Pedro Nava é emblemática. Exemplo de escritor temporão, na realidade, além de prolongada e estreita convivência com intelectuais da melhor estirpe, ao longo da vida, Nava transformava prosaicas histórias clínicas em verdadeiras peças literárias. Claro que há os consagrados desde e sempre. No pedestal, gente do quilate de Guimarães Rosa, aclamado como o maior escritor brasileiro do século 20. A curiosidade é que o mineiro Rosa exerceu a medicina por menos de cinco anos, para alguns, tempo suficiente para criar personagem com a força de Riobaldo. Pessoalmente, preenchi parte da minha infância/adolescência lendo e relendo o idealizado A Cidadela, do (hoje fora de moda) médico escocês A.J. Cronin, leitura que reforçaria o desejo de me tornar médico. Medicina e literatura andam de mãos dadas em muitas páginas de não médicos. Com efeito, grandes romances tiveram doenças e médicos como pano de fundo. É assim com A Dama das Camélias, de Dumas; Madame Bovary, de Flaubert; o ?erótico? O Amante de Lady Chaterlley, de Lawrence e O Médico e o Monstro de RL Stevenson. Os geniais Machado de Assis e Dostoievski foram além. Portadores de crises epilépticas, doença de precário controle na época, tiveram a autoestima subtraída. Talvez por isso, deixaram legado de personagens densas que desafiam a compreensão. Finalmente, intelectuais famosos que atendendo às súplicas da arte abandonaram o curso médico. Na lista, Olavo Bilac, Noel Rosa e Vera Romariz. (*) É médico e professor da Ufal.