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Tempo de colher amoras

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A gente que vive atualmente num mundo tão prosaico, desumano, e tantas vezes cruel, pode até estranhar quando nos deparamos com alguém que é capaz de fazer uma poesia que fala da beleza das coisas simples e amenas. Como se sentir todo o esplendor da existência fosse contradizer a atual condição humana, mergulhada em tanta injustiça e miséria. Mas os poetas assim como transformam a tristeza em alegria, também têm o dom de mostrar, aos menos sensíveis, que através da poesia podemos até colher amoras, mesmo quando semeamos em um terreno árido e seco, comparável ao do Sertão nordestino nesses ciclos que ora se repetem mais uma vez. E é a colher amoras que nos convida a querida Helena Arroxelas Costa, em seu recente livro de versos, que veio a lume durante o ano passado. Convite a princípio tão inusitado numa terra de mangas, goiabas, cajus e tantas outras frutas, como as pitangas nativas, bem mais perto do nosso alcance e do nosso paladar. Mas penso adivinhar por baixo do misterioso título uma clara intenção da companheira de Grupo Literário Alagoano ? grupo que por tanto tempo foi dirigido pela saudosa Ilza Porto e é hoje comandado pela guerreira Nadir Barbosa. Pois o que a autora nos mostra em seu recente livro é que não teve só a motivação dos tons alegres, e que a beleza da vida também pode estar dentro das recordações mais sofridas, que simultaneamente acumulamos no decorrer de nossa existência, como viventes que somos deste mundo. Escrevendo a orelha do volume, assim expressou a acadêmica Teomirtes Malta: ?A poeta soube refletir sobre os fragmentos de um tempo adormecido?; para logo após se perguntar: ?E de que vale a vida sem momentos perdidos?? Para uma alma lírica até as lembranças daquilo que mais nos machucou têm algo de bom, alguma coisa de belo. Mas sabemos também que a alegria de viver é condição indispensável para que possamos ultrapassar todas as pedras que encontramos pelo caminho. Ela afirma desejar ?viver a vida sempre com alegria, pois não se sabe além do presente dia?, ou então sente a ?minha alegria de um tempo tão antigo, confortando o meu ser de hoje?. Vamos, portanto, aceitar o convite da autora e saborear as amoras que ela nos oferece em seus versos sensíveis e nostálgicos, mesmo que para nós outros seja mais gostoso pensar em colher aquelas frutas de nossa preferência, que cada um tem a sua escolhida. Pois colher as amoras de que nos fala Helena, só com um coração cheio de amor, de esperança e de fé em Deus. (*) É escritora.

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