Opinião
Um milh�o de casas
Alguns milhões de votos. Assim segue o governo Lula repetindo e aperfeiçoando erros de antes. A promessa foi clara: construir um milhão de casas até 2010. Sob a ótica apenas da engenharia, até se pode imaginar que seria possível atingir tal prodígio no Brasil; no entanto, se deixarmos de lado os cálculos de engenheiros de comitês eleitorais, se verá que não é exequível o plano eleitoral da mãe do PAC. Para começar, o próprio governo diz que espera ter o Plano Habitacional concluído até abril; depois, já estamos a nove meses do fim do ano, se o mês festivo de dezembro for incluído, e 2010, no mundo público, se encerrará em 31 de junho. Ou seja, se a dra. Dilma estiver certa, serão construídas quase 70.000 casas por mês. Os sem-casa devem escolher: rir ou chorar mais. Por mais boa vontade que o governo pudesse ter, a construção de tantas casas nas áreas urbanas brasileiras enfrentaria alguns problemas iniciais de difícil solução, os quais passam pela existência de terrenos localizados em regiões próximas de infraestruturas básicas, como abastecimento de água, escolas, posto de saúde e transporte urbano. Construir casas de verdade pressupõe que elas sejam habitáveis e tragam a seus moradores conforto e dignidade, exigindo-se que protejam cada família contra doenças. O maior defeito que se vê neste plano habitacional-eleitoral é que mais uma vez se tenta resolver um problema, que é o do déficit de moradias, criando alguns outros, pois é impossível ter casas de verdade construídas em ambientes onde o saneamento ambiental seja excluído dos planos de ação ou onde se verifique que as casas estão incluídas em um universo paralelo distante do planejamento urbano das cidades. O déficit habitacional é apenas mais um entre outros e sua solução isoladamente nunca poderá ser bem-sucedida, pois não há como viver bem em casas onde a água chega algumas horas por dia, onde o esgoto extravasa das fossas ou redes coletoras e corre a céu aberto lavando meios-fios com seu aspecto sujo e fétido ou onde qualquer chuva coloca em risco a vida de muitas pessoas. Mesmo que se reconheça a grave falta de moradias dignas para muitos brasileiros, principalmente os mais pobres, já passou da hora de se corrigir apenas os efeitos, deixando de lado as causas dos problemas decorrentes da urbanização descontrolada que vem assolando o nosso País há algumas décadas. Há que se investir algum tempo no planejamento e na elaboração de projetos que possibilitem o desenvolvimento integrado das cidades criando áreas onde casas sejam espaços dignos. (*) É engenheiro civil.