Opinião
Conduta perigosa
LUIZ GONZAGA BARROSO FILHO * Em Maceió, numa igreja intitulada evangélica, o pregador explicava aos fiéis que um homem com uma doença misteriosa, que o levou a ser submetido a três cirurgias, na verdade, era portador de ?um sapo na barriga? e só ficou curado depois que passou a freqüentar a igreja. Em seguida, uma mulher supostamente em transe, dizendo-se cancerosa, foi conduzida à presença do mesmo pastor, que após colocar uma das mãos sobre sua cabeça e ?abençoá-la?, concluiu que ela estava endemoniada, possuída pelo espírito da ?pombagira?. Noutra igreja, também na periferia da cidade, um pastor assim se referiu ao diabetes (doença que se caracteriza pelo distúrbio do metabolismo dos açúcares no organismo): ?Irmãos, a diabete, como o nome já diz, é uma doença do diabo!? Centenas de fatos semelhantes a esses ocorrem, Brasil afora, diariamente, onde se celebram cultos de várias denominações religiosas, inclusive, com programas no rádio e na televisão, arregimentando milhares de seguidores, geralmente pessoas da baixa renda e de pouca instrução, que se iludem com as promessas de curas milagrosas ministradas por mercadores da fé que, em nome de Deus, formam uma legião de fanáticos, incutindo conceitos deturpados sobre a doutrina cristã, ditando regras que o bom senso não aceita, para a solução de problemas do cotidiano. A maioria dessas congregações é dirigida por indivíduos sectários, sem uma adequada qualificação teológica e filosófica, que atuam como exorcistas e magos, responsabilizando sempre o diabo e os cultos afro-brasileiros pelos males físicos e do espírito que afligem as pessoas que os procuram, além de relegarem a medicina a um plano secundário no tratamento das doenças. Por isso, estrategicamente, promovem permanentes campanhas contra o candomblé, a macumba e a umbanda, que ainda sofrem um enorme preconceito no Brasil e não detêm um forte poder político, em contraposição à medicina que possui inegável credibilidade, mas, até agora, não demonstrou o interesse efetivo em desmascarar os atos ?curativos? praticados nas referidas seitas. Embora a Constituição Federal assegure o livre exercício dos cultos religiosos no País, e incursão de algumas denominações evangélicas nas delicadas questões de saúde, utilizando a fé como único remédio para a cura de todos os males, constitui-se numa conduta retrógrada e muito perigosa, pois expõe as pessoas a graves riscos, no momento em que a ciência tem obtido extraordinários progressos no tratamento de doenças consideradas incuráveis. Portanto, ao invés de prometerem curas milagrosas, os pastores estariam realizando um trabalho louvável perante Deus e a sociedade se pregassem sobre outros temas importantes, como a solidariedade, a fraternidade e a cidadania, sem deixar de orientar os fiéis no sentido de procurar o auxílio de um profissional da medicina sempre que estiverem doentes. (*) É ADVOGADO.