Opinião
Exemplo de m�dica e cidad�
Mirian Lira Castro, médica cardiologista, ecocardiografista do Hospital do Açúcar e professora de cardiologia da Escola de Ciências Médicas de Alagoas. ? Desde que cheguei no Hospital do Açúcar, a conheci. Imediata identificação nos pontos cruciais que devem reger uma amizade: admiração, confiança, respeito e muita coisa em comum na maneira de enxergar e viver a vida. Porque apenas desta forma nascem e florescem as sinceras e duradouras amizades, que passam ao largo de miudezas e interesses menores, e constroem amigos, que seguem juntos pela vida afora. E assim íamos convivendo e nos aproximando cada vez mais. Apesar do corre-corre a que estamos habituados, sempre surgia algum tempo para uma rápida conversa, vizinhos de sala que éramos no mesmo hospital. De vez em quando, o tempo ajudava e púnhamos os assuntos em dia. Nessas ocasiões, ela comentava acerca de seus projetos e de suas grandes paixões: a família, os pacientes, os alunos e as viagens. E por falar em pacientes, não era incomum ouvir sua voz de menina a vibrar com uma imagem diferente ou um diagnóstico mais complexo, algo estranho para a maioria dos mortais, facilmente entendido, porém, para quem verdadeiramente vive a dor e a delícia desse ofício, que nada mais é, senão a arte de minorar as dores que afligem o homem, no corpo e na alma. Exóticos seres, os médicos! Logo em seguida, surgia a secretária sorridente com um recadinho: ?A dra. está pedindo para o senhor vir aqui na sala, rapidinho?. E lá ia eu dividir com ela aquela alegria, mais aquele desafio vencido. Ah, falávamos também dos nossos problemas, claro. Dúvidas, angústias, agruras e frustrações, próprias da nossa humana condição. Todavia, me chamava a atenção nela algumas características especiais: sua extrema honestidade, senso de justiça, seu amor à vida e seu incrível otimismo. Não sei de onde brotava tanto, de alguém com saúde tão frágil, cheia de motivos para lamentos e reclamações, tais os reveses por que já houvera passado, ela que carregava dentro de si uma verdadeira bomba-relógio, prestes a explodir a qualquer momento. Pois assim se fez. O destino se cumpriu. A bomba foi ativada e em apenas alguns dias a levou. Tudo muito rápido, tudo muito triste. Restaram um vazio imenso, uma dor e uma grande saudade. Na sala ao lado, ainda ouço aquela voz de menina a vibrar com seus complicados diagnósticos. E por vezes me vejo esperando pela secretária. Que não vem mais. (*) É médico cardiologista.