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Opinião

Gozando no grosso e no varejo

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Há nove anos, Lavínea e Roninho, dois dos meus três filhos, foram friamente assassinados dentro de casa, praticamente enquanto dormiam. Um empregado da casa, estimulado pela afetividade de uma cínica intrujona (ex-patroa do bandido), que receptava valores furtados da minha residência, foi o autor da barbárie. Essa maligna não foi a única a influenciar a tragédia. Uma loja de armas venderia de forma irresponsável e criminosa uma caixa de balas. O revólver foi adquirido de um militar do Exército. Era a parte ?sadia? da sociedade somando esforços para matar meus dois adolescentes. Embora alguns detalhes sugerissem a presença de um irmão do assassino na hora do crime, a polícia se daria por muito feliz por haver ?desvendado? o ?misterioso delito?. Por diferentes motivações, nunca se cogitou indiciar a receptadora, tampouco, como traficantes, a loja de armas e o soldado do glorioso. O bandido foi a júri. Pelo duplo assassinato, a condenação girou em torno de 31 anos. A Justiça, num rasgo de generosidade, não considerou latrocínio e outros agravantes. O resumo da ópera é que cinco anos depois o criminoso flanava e delinquia pelas ruas da cidade. Há poucos dias, o noticiário exibiu em primeiras páginas a polêmica prisão de Eliana Tranchesi (ex-esposa de um famoso cardiologista paulista), proprietária da badalada loja Daslu. É voz geral que a empresa comercializa as grifes mais caras do mundo. Pois é, condenada a cumprir pena de 94 anos, dona Eliana, segundo a PF, é reincidente em fraudes ao fisco. Usando aquela velha prática de usar talões falsos para driblar os impostos, não obstante, seus preços eram no gogó. Detentora de perdulária clientela, se dependesse dos trocados desse modesto escriba, madame Tranchesi de há muito já estaria de cuia na mão na porta da Sé ou voltaria a pedir pensão ao ex-marido. Com efeito, jamais senti o mínimo desejo, talvez por pura piranguice, de dar as caras naquele templo de exploração e gatunagem. O fato é que o estado brasileiro vive momento sui generis: policialesco, com a hipertrofia da PF; mergulhado em corrupção tendo Brasília como eixo e ao mesmo tempo comandado por bandidos de colarinho branco e pelos pés-de-chinelo do tráfico. Contudo, 94 anos de prisão para delito fiscal, quando por dois assassinatos um facínora é afagado com 5 anos, quer parecer que o País está mesmo às avessas e que esses caras da Jstiça são uns autênticos gozadores. (*) É médico e professor da Ufal.

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