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Opinião

Lembran�as e reflex�es

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A palavra hebraica Páscoa significa ?da escravidão à liberdade?, o que induz a uma reflexão, pausa tão necessária ao nosso funcionamento interior. Para muitos, tornou-se apenas a oportunidade de saborear comidas diferentes e presentear com ovos de Páscoa. Criado em um lar cristão tradicional, na cidade de Penedo (AL), onde fiz os estudos do antigo 1º grau, as quintas e sextas-feiras da Semana Santa eram motivo de respeito conforme os ensinamentos religiosos. Numa quinta-feira da Semana Santa, já não recordo o ano, fui sorteado, entre os ginasianos, para participar da cerimônia católica do ?lava-pés?, em que o bispo lavava os pés de 12 crianças que representavam os apóstolos de Cristo. Esse sorteio provocou estranha agitação em nossa casa. Minha mãe, ciosa dos princípios higiênicos, achou que meus pés de jogador de futebol de rua eram sujos, maltratados e não estavam condizentes para esse ato religioso. Coitado de mim. Uma semana de suplício por conta: suspensão dos jogos de rua e, diariamente, obrigado a lavar os pés várias vezes com pedra-sabão; eles quase viraram espelho. No grande dia, na igreja, calor sufocante, metido em uma veste talar, eu aguardei o início da cerimônia. O bispo aproximou os lábios de meus pés. Um arrepio percorreu meu corpo; a herança religiosa falava mais alto. Muitos anos depois, estive em Jerusalém, numa sexta-feira da Semana Santa, em meio a milhares de peregrinos, fazendo o silencioso percurso da Via Dolorosa, que, segundo a tradição, o Cristo o fez, a caminho do Calvário. Os sentimentos e pensamentos que me ocorreram, naquele momento, são difíceis de reproduzir com palavras. Deixei-me conduzir pela fé e momentâneas emoções. Uma de minhas netas, bonita adolescente, pergunta-me por que enfeitam a casa com coelhos e ovos de chocolate. Respondo baseado em leituras que fiz anteriormente: os coelhos são símbolos de fertilidade, notáveis por sua capacidade de reprodução. Como a Páscoa indica renascimento, ressurreição, sentido de vida e de esperança, o pequeno coelho é bom representante. E o chocolate? Insiste ela. Uma longa história a contar. Na Grécia, o chocolate era considerado alimento dos deuses, dava vigor e força aos que comiam. Na modernidade, existiam civilizações em que ele valia tanto quanto o ouro. Paramos aí. Minha neta aguarda o domingo de Páscoa, desejando comer um ovo de chocolate inteirinho. Repreendo-a, afirmando que todo excesso é prejudicial. Feliz Páscoa! (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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