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Um novo sal�rio para o presidente

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Pelé declarou à revista Veja, em recente entrevista, ter renunciado a um salário mensal de R$ 1 milhão para administrar o time do Santos. Concluí, diante dessa revelação, que somos um povo mesquinho e sem paciência política. De fato, remunerar o presidente da República com o magro subsídio mensal de R$ 11,7 mil, e querer exigir que ele solucione os destinos de um País pobre de conhecimentos, reconhecidamente corrupto e com sede de justiça como o nosso, assim também já é demais! Calma, gente, não se pode transformar água em vinho em apenas 509 anos de existência. Além do mais, quem se elege esquece o passado e só começa a contar o tempo a partir do dia que entrou. Aqui, mentiras velhas sobrevivem ao tempo. O que precisamos, então, é estimular o nosso presidente, a fim de que ele solucione os nossos problemas. Assim, proponho que o seu subsídio passe para R$ 2 milhões. Mas tenho algumas exigências a fazer. Na exposição de motivos que justificará o aumento, o presidente deverá declarar que, em contrapartida, desvinculará o seu salário dos demais poderes republicanos; cortará todas as verbas secretas concedidas à classe política, bem como exigirá publicidade das prestações de contas do dinheiro público nas três esferas de governo. Não há dúvida de que a Nação sairia ganhando, pois, a julgar pela genealogia dos gastos, presume-se que a sua soma seja superior ao aumento proposto. Além do mais, a análise das contas públicas seria fundamental ao nosso amadurecimento político. Portanto, nada mais justo e inteligente que a Nação aprove essa proposta. Mas algo me diz que a classe política tentaria obstruir esse projeto. Fico até imaginando o que ela iria dizer: ?O presidente esqueceu os anseios do povo e tenta socorrer os interesses do seu próprio bolso?. E a Nação? Ah, pobre Nação, acreditaria nesse discurso, claro. A maioria do povo não sabe quanto o presidente ganha e, muito menos, o que é e se existem verbas secretas. E se soubesse não acreditaria que os beneficiários revogassem os seus próprios privilégios. O salário do nosso presidente da república é, a meu ver, mais uma entre tantas outras hipocrisias da nossa política representativa. Ninguém entraria numa campanha para presidente para gastar tanto por tão pouco, a não ser de olho nos privilégios que o cargo oferece. Pelé renunciou ao Santos por R$ 1 milhão. Será que renunciaria à presidência do País por R$ 11,7 mil? (*) É contador.

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