Opinião
Uma efetiva alfabetiza��o
Pensar sobre a escrita e a leitura tem sido tema discutido nos mais variados segmentos educacionais, visto que, nos dias atuais, os índices de analfabetismo têm chamado a atenção geral. Há cerca de 14 milhões de analfabetos no País. Analfabetismo é chaga social. Defende-se o voto do analfabeto como afirmação de cidadania e direito de participação na vida política. Entretanto, se trata de uma situação que deveria ser provisória, pois, se trava luta permanente pela alfabetização. A apropriação dos códigos linguísticos, as letras, envolve uma série de fatores, os quais deverão estar ligados às situações cotidianas. Ressaltem-se numerosas contribuições particulares que ajudam nessa tarefa. Um exemplo local, entre tantos, é o da assistente social Margarida Lima; voluntária, dirige a Pastoral das Empregadas Domésticas, escola adulta informal que alfabetiza e desvenda as técnicas do ler e escrever, incentivando a valorização da cidadania. Imaginemos, como ?sonho sonhado?, que cada brasileiro culto e inserido no contexto social, resolvesse dedicar um pouco de seu tempo à prática da alfabetização de uma pessoa que para ele trabalha; uma parte desse grave problema estaria resolvida. Ultimamente, em revista de circulação nacional, foi publicado artigo trazendo a história da garota Giovanna Cury, como protagonista de uma linda história de alfabetização. Desde os dois anos, a menina frequentava o Cemitério Memorial da Paz, em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, onde seu avô trabalhava. A garota brincava entre as lápides e começou a se interessar pelas letras gravadas, em bronze, nos jazigos. Seu avô, numa atitude solidária, começou a incentivar o desejo da garota em conhecer os escritos e iniciou um processo de formação empírico, fazendo associações entre os nomes e os escritos. Muitas vezes, de joelhos, a menina passava a mão em cima de cada letra gravada e, num gesto de dedicação, seu avô fazia a leitura do que estava escrito. E la, surpreendentemente, aprendeu a ler. Aos mestres, eu lembraria o conceito de Paulo Freire: ?A alfabetização é mais que o simples domínio mecânico de técnicas para escrever e ler. Ela é o domínio dessas técnicas em termos conscientes. Implica não em uma memorização mecânica das sentenças, das palavras, das sílabas, desvinculadas de um universo existencial, mas uma atitude de criação e recriação. Implica uma autoformação da qual pode resultar uma postura atuante do homem sobre seu contexto?. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.