Opinião
A Psiquiatria e o sindicalista
Vale a pena conferir na Folha de São Paulo de 12/04/09 os oportunos comentários de Ferreira Gullar sobre a lei que determinou a extinção dos hospitais psiquiátricos no Brasil. Com dois filhos esquizofrênicos, o poeta não poupa adjetivações ao ?pai? da nefanda lei, um certo Delgado de Tal. Este sujeito, que era deputado do PT de Minas, não só subscreveu o projeto como vivia esculhambando hospitais psiquiátricos, a começar pelo resgate do anacrônico ?manicômio?. Mas, a maior revolta de Gullar era ouvir o deputado dizer que os pais internavam os filhos doentes para deles se livrarem. Posando de grande líder de pretensa ?cruzada antiburguesa?, o deputado Delgado receberia apoio de setores da vida pública ? sobretudo do ?ético? PT ?, dos sindicatos de Psicologia e de ressentidas figuras, que por algum motivo odiavam donos de hospitais. A imprensa também jogaria sua pá de cal. Filmando os pacientes mais regredidos, aqueles francamente demenciados, descalços, despidos, inocularia a falsa ideia de que frenocômios eram aquilo. Alagoas seguiria o script. Na Câmara Municipal, banquei o palhaço ao participar de uma sessão pública de cartas marcadas. Não precisava ser adivinho para descobrir o lado da gurizada do PT. Hospital psiquiátrico viraria a Geni. Numa hora, uma aloprada raivosa vociferava: ?Cadê o doido??. Um outro, pote de mágoas, em lisérgicos devaneios, defendia a psicodélica tese de que sem laboratório clínico não podia haver hospital psiquiátrico. Curiosamente, tudo isso se desenrolava sob as barbas dos órgãos da classe médica. Um cara, ligado ao CF de Medicina, chegaria a propalar que tortura era coisa líquida e certa nesses ?presídios medievais?. Lei aprovada, a drástica redução dos leitos teve como consequência acaciana o naufrágio da psiquiatria pública. Na verdade, o que a lei não concretizou, o SUS realiza com requintes: lenta asfixia da rede hospitalar. A ?luta antimanicomial? deixou sequelas. Se não bastasse o desamparo do doente, a própria especialidade Psiquiatria sofreria desgastes. Ramo dos mais complexos, hoje, médicos de outras áreas, sem preparo, aventuram-se em pseudoescutas e em temerárias prescrições de psicotrópicos. Assim, não foi por acaso que, em entrevista à rádio CBN, o presidente do Sindicato dos Médicos de Alagoas, referindo-se às carências de algumas especialidades, cunharia o psiquiatra com o afrontoso ?um simples psiquiatra?. Simplesmente lamentável. (*) É médico e professor da Ufal.