Opinião
De Rebus Pluribus
Durante alguns meses do ano de 1958, ocorreu um inusitado fenômeno na imprensa alagoana: diariamente era publicado um artigo nas páginas do jornal Gazeta de Alagoas, assinado por um certo Juvenal, que causaram furor na província: eram abrangentemente enciclopédicos, versavam com exuberância sobre tudo o que de mais importante acontecia na cidade de Maceió, no Estado e no País. Nas rodas literárias, nos bares, nas alcovas, ninguém tinha a mínima ideia de quem era este lúmen tutelar. Só quando se encerraram as publicações das extraordinárias crônicas de Juvenal, foi que se ficou sabendo que as mesmas não eram produto de um único sábio, mas sim vinham das cucas iluminadas de quatro luminares da época: Teotônio Vilela, Theo Brandão, Mendonça Júnior e Carlos Moliterno, a quem coube alguns anos depois (1995), como único sobrevivente do grupo, fazer o prefácio da coletânea, lançada pela Ufal com o título De Rebus Pluribus, obra que me foi gentilmente ofertada pelo pró-reitor de extensão prof. Eduardo Lyra. Nas crônicas existem muitas críticas aos gestores públicos de antanho e a situação reinante; todavia, comparando com hoje, mais de cinquenta anos depois o cenário não melhorou e a sensação que se tem é que piorou: mapa da violência publicado pela Folha de São Paulo, mostra que Alagoas é o Estado mais violento do País, com índices de homicídios quatro vezes superiores ao vizinho Estado de Sergipe. Em Maceió, hoje, sair à rua, a qualquer hora implica em alto risco para a segurança. Paralelamente não param de pipocar situações inexplicáveis e absurdas: vinte e cinco médicos e oito psicólogos no quadro da Assembleia Legislativa de Alagoas, ao tempo em que a crise na Saúde assume proporções dantescas, ainda com possibilidades de se agravar, pois em decorrência da crise financeira mundial e da marolinha do Lula o Estado pretende reduzir os recursos da Saúde em 20%, o que irá complicar uma situação que já é caótica. Em uma das crônicas Juvenal tergiversa sobre os homens públicos locais. ?Certos homens só olham a vida pelo espelho. Para eles a coletividade não existe. O bem público é só uma frase, para iludir a massa, etc., etc.?. O que nos fez perder de goleada o caminho da civilidade e do desenvolvimento em comparação com Estados que então eram muito mais atrasados que Alagoas, como nosso vizinho Sergipe, não pode ser creditado a alguma coisa na água que bebemos. Cabe a questão: o que podemos fazer para que daqui a cinquenta anos os nossos filhos e netos não olhem desanimados para o seu redor e não sintam a mesma coisa? (*) É médico e professor da Uncisal.