Opinião
Um saber especial
Desenvolvi um respeito especial pelo povo indígena, quando era criança, por meio da leitura de livros que contavam suas histórias, lendas, guerras e destruições. Ao ler, aprendi o significado do respeito à natureza. Somente depois que me tornei adulto compreendi que, conforme a época, os índios foram entendidos pelo ?homem branco? como selvagens, preguiçosos, inofensivos. Atualmente, são reconhecidos como um povo sustentável, cujos direitos e tradições merecem ser respeitados. Quem mudou de fato, eles ou a nossa percepção sobre eles? Os índios possuem, em sua quase totalidade, saber especial que é a sua forma de compreender o universo e a raça humana. Aquela conhecida lição que o velho índio guarani dava ao seu neto, contada nas rodas de história de minha infância, ainda ressoa em mim. Ele confidenciava ao neto que há guerra interior no coração dos homens, simbolicamente representada pela luta entre dois lobos: um do bem e o outro do mal. Este se caracteriza pela raiva, inveja, cobiça, arrogância, ressentimento, orgulho exagerado e extrema superioridade. Aquele pela alegria, paz, esperança, serenidade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, compaixão e fé. Então, o neto perguntou ao avô, quem venceria essa guerra. O velho respondeu: aqueles a quem ensinemos melhor. E concluiu: as crianças são as sementes de nosso futuro, plante amor nos seus corações e regue com sabedoria; com esses ensinamentos, reconheceremos nelas, no futuro, um saber especial. Em 19 de abril foi o Dia do Índio. Este ano, a comemoração reacendeu discussão sobre a polêmica decisão do Supremo Tribunal Federal acerca da Reserva Raposa Serra do Sol. A área é de 1,7 milhão de hectares de terra contínua que equivale a 12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Dezoito mil indígenas habitam o maior espaço já destinado por governos a povos indígenas, em todo o planeta. Ouvi, certa feita, uma entrevista de um ex-governador do Estado de Roraima, em que ele reclamava que com o fechamento da reserva (e a saída dos produtores rurais, não-índios), o Estado perderia 70% da produção de arroz e contou um curioso fato. Disse ele: ?Há alguns anos, um avião de pesquisa americano sobrevoou a área. Possuía instrumentos de precisão capazes de detectar jazidas minerais e riquezas existentes no subsolo. A força dos minérios da região foi tão forte que destruiu alguns dos melhores instrumentos que a aeronave utilizava?. Esse assunto provoca acalorados debates. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.