Opinião
Com medo da escurid�o
Mesmo quando criança a escuridão nunca me assustou tanto. Afinal, morava numa casa de telha aparente e a luz do poste salpicava minha cama de pequeninas estrelas. Este encantamento me fazia adormecer, sem pensar na rasga-mortalha com seu canto triste e agourento. Depois, a noite sempre se entregava afável às histórias de Trancoso que, com as outras crianças, ouvia de minha mãe no maior silêncio. Agora, depois de velho, esta escuridão me apavora. E não é, só a noite com suas sombras mágicas, sua ilusão da forma sobre o abismo. É o medo de não mais reconhecer o dia com o sol a despontar no horizonte, nem vê-lo fugir apressado para dar lugar a noite. Medo sim, de perder a visão por completo. Só o tempo deu-me a certeza dessa verdade. No princípio, guardava a esperança, mesmo após três cirurgias no olho direito. Agora, já no abismo de uma realidade imensurável, vejo o crepúsculo da visão esquerda se aproximar. A cada dia as imagens se tornam mais opacas e à noite o bruxuleio da luz é apenas uma miragem abstrata. Imagino quanta gente já perdeu a visão, sem ter ideia do que é um descolamento de retina. Falta informação. O paciente precisa ser avisado do risco que corre de uma simples operação de catarata, mesmo com equipamentos de última geração. O míope deveria ser avisado da fragilidade de seu olho. Assim como o que tem glaucoma, diabete e mesmo o com história semelhante na família. Mas não me perguntaram nada. Pior ainda, eu tinha um rasgo na retina, consertado por raio laser. E isto o médico sabia. A oftalmologia, ávida por operar torna-se silenciosa. É preciso buscar em outros centros, médicos dispostos a falar ao paciente a gravidade de sua situação. Considerando que nada mais há para ser feito. Retina é caso imediatista. Requer urgência, competência e equipamentos. Depois, quando o tempo passa a retina ?perde as propriedades?. É assim que dizem. O Brasil, sobretudo a saúde pública, não fez ainda (creio) a contagem de quantas pessoas estão cegas, após simples cirurgia de catarata. Mas, as clínicas são céleres por operar pacientes que apresentam os sintomas. No mundo, a oftalmologia parece em paridade. Os hospitais de referência no Brasil evoluíram tanto quanto outros nos Estados Unidos ou na Europa. Retina é coisa de futuro. Aguarda pesquisas. O meu caso é perdido, respondeu o Instituto Barraquer, em Barcelona, indicando-me sua sede em Bogotá, para cuidar do outro olho. Mas a questão agora é que não há mais nada a fazer. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.