Opinião
Somos todos irm�os?
Dos tempos em que era menina ? e lá vai tempo ? lembro bem de uma garotinha que batia na porta da casa de meus pais, então ali pelas bandas da Levada, pedindo com voz mansa um pouco de comida, pois estava sempre com muita fome. A menina trazia sobre o corpo um vestidinho roto e sujo, e os cabelos encrespados mostravam que, por ali, a água de um banho nunca passava. No outro lado da rua, na calçada, uma mulher de seios murchos tentava adormecer outra criança; adormecer ou fazê-la esquecer a fome sugando o pouco leite que havia naqueles seios mirrados. A menina chegava e eu imediatamente corria para pegar um pão, umas bolachas ou até alguns tostões, na moeda da época, porém nunca deixava aquela criatura de mãos vazias. Um dia, lembro de ter perguntado ao meu pai, à época um pequeno comerciante com banca no mercado velho, o porquê daquela menininha não se vestir como eu e ainda ter de pedir comidas. Meu pai respondeu apenas que quando eu tivesse mais idade iria entender o que era injustiça social; e que o ?somos todos irmãos?, ouvido nas aulas de catecismo, não passava de simples metáfora, o que só fui compreender mesmo muito mais tarde. Aquela menina nunca me saiu da cabeça, nem sua mãe de peitos tão mirrados, tanto que lá pela minha adolescência, ao tentar os primeiros versos, fiz um poema que dizia assim: ?Tenho pena de você, criança esfarrapada, que vive pelas ruas, a dormir pelas calçadas; tenho pena de você, dos seus olhinhos que choram, dos seus olhinhos que tanto imploram...? Com o avançar da idade, o tema das injustiças sociais tornou-se parte da minha vida, não só em poemas e crônicas, como também em trabalhos que ajudei a desenvolver em instituições beneficentes, a exemplo da Cruz Vermelha Brasileira, filial de Alagoas, durante o longo período de presidência da abnegada Terezinha Normande. Sei que há, ainda hoje, pessoas idealistas que a duras penas tentam levar ajuda aos mais necessitados, naquele espírito de fraternidade pregado por Cristo. O que dói é sentir que os que mais poderiam ajudar a combater essas misérias são os mais egoístas, os que só pensam nos próprios interesses, como esses políticos que se locupletam com a miséria. A usura, a ganância, a falta de amor, é que está ajudando a tornar este mundo o verdadeiro palco de tragédias que estamos vendo todos os dias. E sei que vou morrer me perguntando se ainda iremos usufruir de um planeta onde o amor, a paz e fraternidade façam parte da vida da maioria dos homens... (*) É escritora.