Opinião
N�o quero ser deputado
Não vai muito tempo, em encontro de amigos e familiares, discutiam-se os descaminhos da democracia no Brasil. Falava-se sobre políticos cujos desvios de conduta tornaram-os eticamente irracionais. Comentava-se quanto ao lamentável descrédito em que caiu a Assembleia Legislativa de Alagoas ? nossa Caixa de Pandora, de onde partem notícias ruins e de modo quase ininterrupto, fazendo com que seus integrantes, de modo geral, sejam vistos de esguelha por nossa comunidade. Portanto, foram lembrados o mau uso das verbas de gabinete, os altos salários quando somados às mordomias, o poder político de que dispõem a serviço da mais descarada barganha, a desfaçatez no desvio de verbas públicas e muito mais. Chorava-se pelos descaminhos a que foi levado o sistema parlamentar brasileiro em decorrência da ganância e da pequenez de tantos dos pretensos representantes do povo. É quando um dos interlocutores indaga em tom provocativo: ?Mas quem não gostaria de ser deputado, ainda mais contando com o corporativismo inter paris que leva praticamente à impunidade parlamentar??. Para sua surpresa, vários dos presentes negaram acalentar tal desejo. Falo por mim; não, não quero ser deputado! Bem sei que esta é mera suposição para fins de argumento, sem qualquer suporte político eleitoral, pois não tenho (aliás, nunca pretendi ter) qualquer cacife para entrar em jogo pesado. Mas, repugna-me a ideia, face às circunstâncias ocorridas nas instituições parlamentares, particularmente quanto à Casa de Tavares Bastos e a Câmara Federal. Maceió e Brasília são cidades unidas sob a aviltante teia de iniquidades! Assim, explico, não quero ser deputado, para não ter de conviver com os taturanas (esdrúxula categoria!) por tudo quanto deles se sabe. Teria que dirigir-me a eles, por praxe parlamentar e civilidade, usando expressões corteses tais como ?Vossa Excelência, nobre deputado? e isto seria muito ?faro? da minha parte! Não quero também chamar de colega quem nunca separou interesses públicos dos seus próprios. Como poderia interagir com quem paga a babá dos filhos com verbas públicas? O que dizer de trabalhar numa entidade que não sabe quantos funcionários tem, que não recolhe à Previdência Social o imposto devido, já foi descontado dos seus servidores? Um parlamento que só muito recentemente, e sob pressão, criou a sua Comissão de Ética e Decoro Parlamentar. Portanto, queridos familiares próximos e meus quase dez eleitores garantidos: não quero ser deputado. Também não desejo ser senador ou vereador. (*) É médico e professor da Uncisal.