Opinião
De m�rtires e her�is
País de muitos bandidos e poucos heróis, de repente o povão se vê órfão de uma mão condutora que o leve a um porto seguro. Tivemos alguns mártires: Tiradentes, o messiânico inconfidente mineiro que injuriado com a exploração da corte portuguesa equivocou-se e pensou que se livrar do jugo colonialista era um passeio, é a nossa figura mais reverenciada. Calabar, cuja memória move-se entre a execração e o culto, portador de patriotismo relativo, posto que, na verdade, não pretendia nossa independência, mas apenas livrar-se dos lusitanos e entregar o ouro aos colonizadores holandeses. Ícone da luta contra a escravidão, o negro reimoso, herói, mártir, Zumbi daria muito trabalho ao status quo. Como tudo é relativo, Domingos Jorge Velho, o sujeito que teria comandando o massacre do Quilombo dos Palmares, paulatinamente vem caindo no ostracismo, na página B da História, passando da antiga condição de herói para a de um mercenário impiedoso que tudo fazia pelo dinheiro. Mais recentemente, outro mineiro morreria num simbólico 21 de abril: Tancredo Neves. Velha raposa, num dado momento, Tancredo tornar-se-ia o ponto de convergência dos que queriam se livrar dos militares. É que o mandonismo das casernas torrara o saco de todos. Àquela altura não se queria saber de intolerância, de mau humor, de arrogância. E ninguém além de Tancredo encarnava a antítese. Sua morte, precedida de pública agonia, comoveu o País, que não hesitou em elevá-lo (indevidamente) à condição de herói. Premidos pela emoção, os mais radicais enxergaram naquele cadáver um mártir. O último da ditadura. Exagero. Relembro Muniz Falcão. Reeleito governador de Alagoas em 1965, teve seu mandato cassado. Logo depois morria de câncer, doença que eclodira anos antes. Líder incontestável, seria forçar a barra afirmar que foi a conjuntura política quem o matou. Temos agora o caso da ministra Dilma Rousseff. Pela ficha policial que de quando em vez circula pela internet, foi uma das mais ativas terroristas dos anos de chumbo. É de arrepiar a coragem daquela adolescente. Assaltante ousada, à frente de uma trupe que sonhava impor ? no grito e na bala ? ao País uma ditadura marxista. Quem vê dona Dilma hoje, doce e meiga no olhar de gueixa, não imagina a fera que rugia naquele coraçãozinho maternal. Dona Dilma retirou um nódulo cujas chances de cura beiram os 100%, até mesmo se tratado pelo SUS. É brincadeira aclamá-la como heroína ou mártir. (*) É médico e professor da Ufal.