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Ele partiu e ficou partindo

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Sim, Ele ficou nos sinais sacramentais. Na verdade, sua presença cosmológica e a dimensão ecológica nunca deixaram de existir na Eucaristia. Embora presentes, foram essas dimensões tornado-se invisíveis na cultura ocidental centrada no homem, na mulher e em suas obras. Assevera a Liturgia Bizantina que, no Monte Tabor, não foi Jesus que se transfigurou, senão as escamas que caíram dos olhos dos apóstolos e, de logo, contemplaram o Mestre na sua transcendental beleza. Com efeito, Jesus sempre fora Jesus, os discípulos é que não tiveram a capacidade de divisá-lo. Acontece que, no descer do Tabor, a capa de argila retornou ao seu lugar e seus olhos não mais contemplaram o extraordinário do Mestre, senão o seu ordinário humano. O que, de repente, semelhantes considerações suscitam é que, na celebração eucarística, o olhar dos fiéis e celebrantes, recobertos pelas escamas do antropocentrismo, pouco ou nada descobre; e a beleza do cosmos fica esquecida, durante o ano litúrgico. Entendo e sou o primeiro a admitir que nosso corpo reproduz a geografia do universo ou, pelo menos, da Terra. De tal maneira que os mesmos elementos químicos encontrados na Terra estão presentes em nosso corpo. A Terra e nosso corpo têm a mesma proporção de água: 70%. Somos filhos da Terra. Ela é nossa mãe. Não deixa de ser incrível, mas nossa respiração é boca a boca com a natureza: do nascimento à morte, jamais deixamos de respirar. Morreríamos, caso não absorvêssemos o oxigênio que nos é fornecido pelas plantas e algas do oceano. Já o gás carbônico que expiramos irá nutrir as plantas e os plânctons. Na natureza, é-nos impossível viver sem comida e bebida. A propósito, toda comida é vida que morreu para nos conservar: o arroz de que nos nutrimos é um cereal que morreu para nos dar a vida. Bem assim, o feijão. A carne: um animal que morreu para nosso alimento. O vinho: a fruta esmagada, triturada para a nossa bebida. Em outras palavras o que morreu ?revive? em nova qualidade de vida. Agora, a batata é carboidrato em meu organismo, e a carne, proteína. Vivo, porque algo morreu para que eu vivesse. Cristo morreu para se dar como alimento nos sinais eucarísticos. O corpo de Cristo foi sacrificado para ser alimento dos seres humanos. Assim refletindo, chegamos à conclusão de que o Cristo partiu ficando e ficou partindo, na sua presença eucarística. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.

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