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Eu quero ser deputada

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Não pretendia escrever agora, mas fui instigada por um artigo publicado, recentemente, neste jornal. Devo dizer até, que estou com o tempo muito escasso para outras coisas, que não sejam trabalho e estudo. Tenho muitas atribuições como professora, médica, vice-presidente da Sociedade de Medicina e candidata ao doutorado. Estou feliz e todo este trabalho me gratifica, e integra as escolhas que fiz. Não resisti, no entanto, a responder a uma provocação (no bom sentido) do eminente professor e psiquiatra dr. Agatângelo Vasconcelos. Passei até um e-mail para ele, parabenizando-o pelo artigo no qual ele explicava por que não queria ser deputado. O dr. Agatângelo é uma das pessoas mais íntegras, inteligentes e realizadoras que eu tive a oportunidade de conhecer ultimamente. Por isso, lamento o fato de que uma pessoa como ele não sonhe em ocupar uma vaga na Casa de Tavares Bastos, na Câmara ou no Senado. Sinto muito quando cidadãos brasileiros deste porte desistem da política. Quando isso acontece, a democracia fica mais frágil. Por isso, é bastante importante perseverar: eu quero ser deputada. Quem leu a Folha de São Paulo de domingo 26/04, ao contrário, deve se revoltar com a falta de escrúpulos com que o nosso dinheiro, 27,5% de cada consulta de convênio, sustenta esta farra de Brasília, deve pensar em oferecer os seus nomes para a próxima eleição. Se os bons se abstiverem, o sucesso dos maus estará garantido. A mesma Folha estampa matéria em que o congresso brasileiro (com letra minúscula mesmo) está entre os mais caros e com menos transparência do mundo ? cada parlamentar custa cerca de R$ 10,2 milhões por ano; e o cidadão despende cerca de R$ 32 para sustentar câmara e senado. Perguntaram se você quer pagar esta farra? Eu não quero. Neste jornal, Gilberto Dimenstein relata o caso do rapper Afro-X que ao cumprir seu último dia de uma pena de 14 anos, por assalto à mão armada, lançou uma biografia, para explicar como um jovem é seduzido pelo crime. Entre as inúmeras razões, ele destaca o exemplo do político brasileiro ? ?eles transmitem a sensação de que o crime compensa. São tantas as acusações e parece não acontecer nada?. Esse descrédito na política é um tiro fatal na democracia. Portanto, dr. Agatângelo, não devemos desistir. Nem o senhor, nem eu, nem vários colegas nossos honestos e capazes. Ao contrário, vamos lutar para tirar a política brasileira desta lama em que ela está atolada. (*) É médica e professora da Ufal.

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