Opinião
Can��o amiga para a minha m�e
Na casa dos meus pais, a porta do quarto que um dia foi meu se abre para muitos mundos, entre eles o que me fez deixar o velho aconchego para caminhar com as minhas próprias pernas. As mesmas pernas que me fazem voltar sempre na busca de proteção. Hoje, tantos anos passados, revejo os símbolos que um dia espalhei pelo cômodo ? e que ainda estão lá, carcomidos pelo efeito inexorável do tempo. À entrada, uma fotografia d?As Quatro Estações ? o disco do Legião Urbana que sonorizou a minha juventude ? dá as boas vindas aos poucos que tiveram o privilégio de ultrapassar a porta por onde tantas vezes o som do velho violão saiu e ganhou a casa, indo repousar nos ouvidos atentos da minha mãe, que ainda hoje ? de tanto me ouvir tocar as mesmas músicas ? se pega cantando os versos de Renato Russo: ?Quando o sol bater na janela do teu quarto/Lembra e vê que o caminho é um só?. ?Essa música traz sempre você pra mim?, disse-me ela outro dia, com os olhos cheios de saudades e lágrimas. Ainda hoje, quando a vida se inverte, o quarto que um dia foi meu é o lugar onde me sinto mais seguro. É onde fecho os olhos e ouço minha mãe cantar, com a mesma alegria de outrora, a velha canção que me faz seguir adiante. ?Dorme agora, é só um vento lá fora?. E todos os meus medos sossegam feito criança que ouve canção de ninar. Quando a vida calha de escurecer, a porta do quarto que um dia foi meu se ilumina pela canção amiga, que um dia preguei para embalar meus sonhos, feitos de tantas esperanças. ?Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças? Todas as vezes, antes de deixar a casa para enfrentar a vida lá fora, releio com carinho a canção do poeta, qual oração a proteger contra infortúnios inesperados: ?Eu preparo uma canção Em que minha mãe se reconheça, Todas as mães se reconheçam, E que fale como dois olhos? Depois, ao fechar a porta, examino com olhar de ontem a foto do Legião Urbana, como se quisesse me despedir de uma adolescência ainda impregnada. Beijo os meus pais e sigo cantando as mesmas músicas que cantei um dia, agora diante do olhar de despedida de minha mãe à porta. ?Eu moro na rua/ Não tenho ninguém/ Eu moro em qualquer lugar...?. Na casa dos meus pais, a porta do meu quarto vai bater direto no coração da minha mãe. (*) É jornalista.