Opinião
O mau uso de Hip�crates e baldes
O grego Hipócrates, o pai da Medicina, viveu entre os anos 470 e 360 AC. Seu pai também médico e igualmente Hipócrates não gozou do mesmo prestígio alcançado pelo filho. Contudo, maior que todos eles foi Asclépios, filho de Coronis, uma mortal e do deus Apolo. Asclépios, narra a mitologia, teria aprendido a arte de curar com o centauro Quiron, seu pai de criação. Uma ciumeira entre os deuses teria sido a causa da morte de Asclépios. Numa reparação póstuma, Zeus o colocaria junto a si no Olimpo. Daí até ser escolhido o deus mitológico da Medicina foi um passo. Hipócrates seria descendente direto desta figura. Hipócrates, como se deduz, exerceu a profissão sob a égide da moral de sua época. Embora humanitário, subsistia da medicina e não da caridade pública. Seu grande mérito foi a dessacralização das doenças. Para ele, estas tinham causas naturais, por conseguinte, as curas seguiriam igual curso. Manteve as divindades distantes de sua prática. Não obstante, no seu célebre ?juramento?, uma tradicional leitura nas faculdades de medicina do mundo ocidental, Hipócrates inicia invocando Asclépios e as filhas Higéia e Panacéia. Jura não cobrar dos filhos dos seus colegas para ensinar-lhes a arte de curar. Dentre outras coisas, é ponto de honra não revelar segredos que lhe forem confiados. Infelizmente, influentes vozes pretendem abolir esse belo e romântico texto. Sendo a medicina laica, argumentam, não faz sentido jurar por deuses mitológicos. O fato é que o exercício da Medicina, hoje, é regido por rigoroso código de ética e fiscalizado por órgão criado com essa finalidade, o CRM. O velho Hipócrates de quando em vez é lembrado para enfeixar discussões que visam atingir os médicos. Dia desses, um gestor público caiu nessa cilada durante uma greve da classe. Na falta de mais substância apelou para o pai da medicina. É como se dissesse: ?Vocês juraram trabalhar de graça ou a preços vis, passar fome e levar calote, conformem-se?. Falando de ética, causou frisson a afirmação, em artigo anterior, que aquela foto do HGE em que um balde aparece colado a uma doente seria uma armação. Sem ter sido acusado (sequer nomeado), o presidente do Sindicato dos Médicos Wellington Galvão garante não ter sido dele a mão que moveu o utensílio. Embora haja outros esclarecimentos públicos ainda pendentes, a minha convicção é de que com ou sem balde a situação da saúde continua tão caótica quanto dantes. (*) É médico e professor da Ufal.