Opinião
O controle do conhecimento
Há um debate antigo entre as correntes de pensamento ligadas aos franceses e aos ingleses. A maioria dos estudiosos afirma que os franceses sempre foram mais racionalistas que os ingleses, diferença que remonta à Idade Média. Quando os ingleses falam em common sense, os franceses gostam de falar em evidence. A expressão inglesa significaria ?o que é de conhecimento de todos? e a expressão francesa seria ?evidência?. Daí, que a maioria dos filósofos do iluminismo, tal qual os humanistas da Antiguidade, como Sócrates e os estóicos tinham uma fé inabalável na razão humana. No miúdo, o iluminismo seria a possibilidade de ?iluminar?, de esclarecer as amplas camadas da população, onde imperava a superstição e a incerteza. Os filósofos do iluminismo ou do ?racionalismo?, como foram chamados na França, diziam que somente quando a razão e o conhecimento se tivessem difundido entre todos é que a humanidade faria grandes progressos. Seria uma questão de tempo para que desaparecessem a irracionalidade e a ignorância e surgisse uma humanidade iluminada, esclarecida. Hoje, não existe mais esta convicção absoluta de que o progresso do conhecimento leva necessariamente a melhores condições de vida, mas, não se questiona que o conhecimento é um direito do cidadão e provê-lo, um dever dos governos sem exceção. No caso da ministra Dilma Rousseff, a Medicina sabe que a maioria dos pacientes acometidos de linfoma Não-Hodgkim na época em que fazem o diagnóstico já tem doença generalizada. Apenas 20 a 30% dos pacientes têm doença localizada. O curso de sua enfermidade, com um quadro grave de miopatia que a levou à hospitalização, logo após a segunda seção de quimioterapia, foi explicado como uma sequela na manipulação de drogas, mas não exclui a possibilidade de que a paciente possa estar incluída entre os 70% majoritários. Afinal, a Medicina, por mais que tenha avançado, ainda tem limitações, principalmente do diagnóstico da doença subclínica em oncologia. No caso da Petrobrás, a criação da CPI foi demonizada pelo governo e parte de sua base aliada. Conhecer o que ocorre na intimidade da maior empresa pública do País é um direito do cidadão e um dever do governo propiciar este conhecimento. Afinal, embora os iluministas não tivessem descoberto a pedra filosofal, o controle do conhecimento pela autoridade é o retrocesso à Idade Média da qual ainda precisamos nos libertar em vários momentos. (*) É médico e professor da Uncisal.